A primeira menstruação autista

Toda menina passa por esse processo “assombroso” de transformação do corpo. Geralmente em torno de dez ou onze anos de idade. A situação por si só já é bem embaraçosa, ainda mais quando estamos falando de autismo. Por isso vim aqui contar sobre como foi a minha experiência com a chegada do ciclo reprodutivo.

Eu tinha dez anos, quase onze, me lembro bem de que usava uma calça de moletom vermelha com a carinha do Mickey Mouse na perna direita e uma camiseta branca do Pato Donald. Meus cabelos negros e longos com uma franja cobrindo a testa e com uma capacidade de falar sem parar por horas, fazia um pouco mais de um ano que eu havia “decidido” usar a fala como forma de comunicação. Estudava de manhã em uma escola pública e tomava uma condução de ida e uma de volta para casa todos os dias (eu não faltava aula por nada apesar de odiar a escola). E sim, eu ia e voltava sozinha, não tinha outro jeito, não tinha quem me levasse ou buscasse e minha mãe sabia que eu era altamente literal, que tinha medo de tudo e de todos e que eu jamais falaria com estranhos… Então foi em um dia de aula que comecei a passar mal ainda na escola, uma forte dor de estômago misturada com mal estar generalizado. Minha barriga parecia ter vida própria. Pulei o muro da escola (ninguém dava falta de mim) e fui para casa… Ao chegar em casa fui direto para o banheiro, sentia contrações e dores violentas, não estava entendendo nada.

Quando me levantei dei de cara com uma cena de horror, tinha sangue por tudo, sentei de novo e jatos de sangue saíam de mim. Entrei em desespero, sabia o que era porque já tinha presenciado familiares na mesma situação, mas eu? Eu era aquela “coisa esquisita” que falava sozinha e que não tinha ideia de como conseguir um absorvente… Fiz um “tufo” de papel e coloquei na calcinha. Como autista tem azar em tudo, aquele dia meu pai chegou cedo do trabalho, com o carro da empresa e me convidou para ir buscar minha mãe no trabalho, antes ele queria que eu fosse ao mercado comprar cigarros. A cada passo, o sangue escorria, entrei em estado de pânico, voltei com os cigarros e entrei direto no banheiro com cigarro e tudo. Me lembro do meu pai dizendo que minha esquisitice havia piorado e que iria dar um jeito em mim… Saí do banheiro aos prantos e dizendo que eu queria morrer. Meu pai me pegou pela mão, me colocou no carro e fomos buscar minha mãe ao som de “Ozzy Osbourne“…

Esse terror durou alguns dias, eu não tinha coragem de contar para ninguém e, no terceiro dia, ao voltar da escola, de calça de moletom amarela, percebi pessoas olhando muito para mim, a calça amarela tinha uma poça de sangue pernas abaixo. Naquele momento eu não sabia mais o que fazer e tentei me matar com chá de erva cidreira (achei que se comesse algumas folhas eu conseguiria)… Bom, não deu certo e acabei contando para minha mãe, e neste momento toda a minha família comemorava a nova “mocinha” da casa (que ódio – sério, queria sumir).

Junto com a menstruação o corpo começava a tomar formas, ter sensações que antes desconhecia e meu comportamento ficou cada dia mais complicado. Pronto! Autismo e TPM era tudo o que eu não poderia tolerar. Não foi feito nada para eu me sentisse melhor, então passei a pular o muro da escola com frequência, faltar aulas e trocar o dia pela noite. Comecei a conversar com pessoas de mais idade que eu, minha vida virou um terror, sofri o primeiro abuso e tentei me matar pela segunda vez, dessa vez com uma garrafa de “cachaça” do meu pai. Aquilo era ruim pacas e o máximo que aconteceu foi me fazer vomitar e levar uma bronca.

Com o tempo fui me acostumando, mas sem a devida orientação, certa vez comprei uma caixa de O.Bs, ainda virgem, e tentei colocar à força, no desespero de fazer aquele sangue parar de escorrer. Me feri, chorei, tive crises horríveis, perdi o ano na escola, ninguém me entendia e eu não entendia a forma como o corpo humano precisava funcionar.

Tudo o que eu queria era uma bolsa de água quente, um nescau, um colo e um carinho, mas eu não tinha e aquilo se transformou em revolta, em nojo, em solidão e em auto punição, as agressões físicas perderam o controle, eu me batia, me mordia, batia a cabeça da parede e comia flores (estranho, mas aquilo me confortava). Aos quatorze anos passei a tomar anticoncepcional por conta própria, tive sérios problemas no ovários (tenho até hoje), mutilava meu corpo com as unhas, com socos e com puxões de cabelo. Um terror que só terminou quando eu me casei.

Fiquem atentos às filhas meninas, elas precisam de cuidado, de orientação, de privacidade e atividades que desviem o foco. Precisam também que as lições lhes sejam ensinadas através de imagens, como fotos e vídeos, pois isso facilita a compreensão.

Não negligencie essa fase, reduza o horário escolar se for preciso e tome muito cuidado com as tentativas de suicídio, pois ao invés de folhas de erva cidreira, pode-se correr o risco de acontecer algo muito pior.

Autismo é vida – me ame como sou

Na luta contra o preconceito e a favor da verdadeira inclusão.

Novo blog

Bom dia amigos. Pensei bastante de ontem para hoje e resolvi criar este blog. Algo básico, mas que terá muito conteúdo.

Por aqui não terá somente as minhas histórias de vida e impressões de mundo. Quero contar histórias de vida de outras pessoas e também minhas divagações sobre o que anda acontecendo no universo autista.

O novo nome tem tudo a ver com a nova fase. Autismo News, seguirá o padrão da minha página Autismo News do Facebook, algo pessoal, direto, mas com informações que envolvem o autismo no mundo.

Espero que gostem.

Em tempo! Meu amigo Daniel Oliver conseguiu recuperar o cache da minha página que foi hackeada. O site não voltou ao ar, mas consigo copiar o conteúdo para republicar.

Sim, tenho os melhores amigos do mundo. E você, leitor, está incluído nessa minha lista gigante e interminável de amigos que faço pelo mundo.

Beijos no coração.

Kenya Diehl

Autismo é vida – me ame como sou
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