O autismo e a relação com a comida

Muitas famílias de pessoas com autismo enfrentam a dura realidade da seletividade alimentar, mas nem sempre é fácil identificar onde está o problema. Por isso resolvi contar minha história para vocês sobre a minha relação com a alimentação.

Desde muito pequena já me lembro sobre minha dificuldade com a alimentação.

Tudo era difícil, tudo era precário e eu não podia escolher o que comer, era o que tinha, na quantidade que tinha e não adiantava chorar.
Acostumei a sentir fome, porque o que eu conseguia ingerir com prazer era apenas leite com nescau. Só que não eram todos os dias do mês que havia leite e muito menos nescau!

Eu olhava para a comida e nauseava imediatamente (é assim até hoje com certos alimentos), passava mal com o cheiro e, especialmente, com o visual das comidas, por exemplo, era impossível comer banana por causa da “semente”, pães somente sem casca, margarina tinha que ser “claybon” (nem sei se isso existe ainda), a carinha da menina lambendo os lábios me fazia sentir vontade de comer e eu via cenas em que eu estava comendo pão com a bonequinha feliz do pote de margarina…

Naturalmente acabei subnutrida, com cáries em vários dentes e ossos frágeis, porque não era questão de comer pouco, era não comer nada e pior, eu não tomava água!
Além de toda a sensibilidade com a comida, eu sentia muito medo do vaso sanitário e então eu também evitava a alimentação com receio de que teria que ir ao banheiro depois.

E quando tudo faltava e até a luz era cortada eu esperava ansiosamente a chegada do leite – e do nescau, isso levava dias, me parecia uma eternidade! Quando finalmente me era entregue aquele copo cheio de achocolatado eu me sentia viva, tomava tudo, cada gotícula de sabor me levava a uma sensação de êxtase e no final a alegria de raspar com a colher o açúcar que sobrava no fundo do copo.

Eu vomitava com muita facilidade e ver no que o alimento se transformava depois de ingerido também me assustava bastante! Ao invés de comer tranquila eu pensava que depois teria que ir ao banheiro ou imaginava todo aquele “vômito” dentro da minha barriga. Complicado né? Eu era considerada uma criança depressiva, problemática e sem noção.

O diagnóstico veio aos nove anos de idade, o que não mudou absolutamente nada em minha vida, pois segui sem tratamento e sem compreensão. Acredito que um apoio psicológico e a construção de uma relação saudável com a comida poderia ter ajudado.

Hoje em dia não fico mais sem comer, mas preciso lutar todos os dias de minha vida contra a compulsão alimentar. Pois é,! De subnutrida passei a ser “cheinha”, o que me incomoda igualmente e precisa de toda uma reprogramação mental. Com sorte tenho pessoas que me ajudam, entre elas Fatima de Kwant, que está me ensinando a entender a relação entre o que sinto e o que busco em forma de comida no momento que estou sentindo.

Nunca é tarde, a vida passa e a gente cresce. Uma porção de sintomas ficam adormecidos, guardados e escondidos das pessoas, mas eles nunca deixam nossa mente verdadeiramente em paz. O risco está justamente no momento em que resolvemos extravasar e botar todos os fantasmas para fora da caixa.

Fique atento! Observe seu filho e o ajude a ter uma relação saudável com a comida e com o próprio corpo como um todo.

Autismo é vida – me ame como sou
KenyaDiehl®️
Na luta contra o preconceito e a favor da verdadeira inclusão