Cartinha de aluno autista comove a quem lê

Guilherme Diehl

“Querida professora,Como sabe, sou autista.

Já fui autista moderado e não verbal. Mas hoje, aos nove anos, sou autista asperger e falo de tudo.Sou inteligente, feliz e carinhoso. Adoro brincar, amo conversar sobre meus assuntos favoritos e isso às vezes pode ser um problema quando estou sozinho com as crianças porque elas me acham esquisito.Tenho muita sensibilidade aos barulhos, não gosto de brigas, se as presencio eu choro e posso me desorganizar.

Eu sei usar o banheiro, lavar as mãos e vestir minhas roupas, mas eu não tenho o hábito de fazer minhas necessidades fora de casa. Gostaria muito que ninguém insistisse com isso. Eu fico bem assim e vou ao banheiro logo que chego em casa. Apesar de eu ser independente, na hora do lanche ainda preciso de orientações mais diretas, principalmente ao abrir embalagens e guardar tudo bem fechadinho no final. Eu sou esperto, galanteador e tentarei te distrair muitas vezes, não é que eu não queira aprender, é que tenho dificuldade em me concentrar e sofro de ansiedade. Preciso de paciência e de muito carinho.

Não sou agressivo, nunca precisa ter medo de mim, o meu maior problema é ser insistente quando quero algo. Por favor professora, seja firme em me manter atento à aula, eu preciso disso para me desenvolver.

Minha mãe está sempre pertinho e qualquer coisa você pode ligar para ela. E falando nela, mamãe também é autista asperger como eu e foi ela que me ensinou a conviver melhor com as pessoas.

Não gosto de me apresentar em datas festivas. Você vai ver eu ensaiar e me motivar. Eu amo música, dança e fantasias, mas sabe professora, eu não gosto da escola cheia de familiares e turmas juntas. Na hora certa eu vou conseguir, mas ainda preciso aprender a diferenciar dias de aula dos dias de festa. Eu enxergo tudo por partes e me esforço muito para conviver bem com todos, mas isso me deixa confuso e com dificuldade de entender quando tudo muda.

Ah! Antes que eu me esqueça, eu preciso te dizer que demoro mais para aprender, mas nunca mais me esqueço daquilo um dia aprendi a fazer. Não entendo piadas e nem indiretas. Ironias e falas invertidas me incomodam porque nunca sei o que estão querendo dizer. E fico muito triste quando riem de mim. Adoro falar frases de filmes e desenhos e isso pode ser complicado com outras crianças se não tiver um adulto me ajudando a interagir. Mas se vejo alguém triste eu sou o primeiro a proteger e tentar curar o que lhe incomoda. Porque eu sou um amor e eu amo amar as pessoas.

Ano passado eu aprendi e a ler e a escrever. Espero que a gente tenha um lindo ano e que no final eu possa saber mais um pouco sobre tudo o que a escola tem a me ensinar. Quero aprender a brincar melhor com eles e continuar na constante evolução que venho tendo desde que cheguei neste mundo.Estou ansioso pelos passeios, esses que um dia achei que nunca iria conseguir, mas com a ajuda da mamãe e do papai e também das profes eu aprendi a amar esses passeios e aproveito muito bem. Ano passado tive uma convulsão depois da festa do dia das crianças, então esse ano teremos mais cuidado com isso.

Eu faço reforço com psicopedagoga todos os sábados e lá ela me ensina a brincar, a escrever as letras e contar os números. Ela me ensina também a saber esperar e a fazer trocas, sou muito bom nisso!Conheço todos os números, as letras, cores, formas e alguns planetas. Amo o hino brasileiro e as visitas à igreja da escola. Sei brincar de imaginar, mas não sou capaz de mentir. Não fique brava se eu inventar uma história meio maluca, mamãe está me ensinando que isso pode confundir as pessoas e estou aprendendo a contar tudo como realmente aconteceu. É que para falar eu uso ecolalias e nem sempre consigo encaixar as frases aos acontecimentos.

Você vai me ensinar muitas coisas querida profe, mas eu também vou te apresentar grandes lições.

Um beijo na profe, do seu novo aluno. Gui”KenyaDiehl Diehl e GuiDiehl18/02/2019