Eu autista

Autista adulto – alto funcionamento

Desde os nove anos de idade convivo com o diagnóstico de Transtorno do Espectro autista. Sou escritora, consultora em autismo, palestrante, blogueira e ativista na luta pela conscientização do autismo. Sou esposa, mãe, filha e tenho toda uma vida cheia de sonhos, frustrações e também alegrias…

Tenho 36 anos e, quando ouvi falar em autismo pela primeira vez, me lembro do termo asperger, algo que parecia um pouco menos pior do que o autismo propriamente dito… Mas não foi bem assim que as coisas aconteceram.

Sempre fui diferente, esquisita e sincera. Tinha sérias dificuldades de me encaixar nos padrões esperados para pessoas com a minha idade, não importava a idade que eu tivesse.

Hoje, com toda uma vida construída e com um olhar profundo sobre as coisas e sobre a vida, muitas pessoas me questionam sobre o que ainda há em mim que esteja relacionado ao autismo.

Perguntam se fui curada ou se tive a perda do diagnóstico. Infelizmente não posso afirmar que sim, mas posso dizer que diante de todas as maldades do mundo, teoricamente eu me dei bem.

Sou uma pessoa vista como “normal”, quem me encontra pessoalmente me vê sempre com as unhas bem pintadas, as sobrancelhas bem feitas, a maquiagem impecável e o mesmo perfume adocicado que uso há alguns anos… Sou uma pessoa responsável, amável e preocupada com os problemas da humanidade, mas…

E sempre tem o mas… Não consigo sair de casa sem a tal maquiagem, chegaram a me perguntar se uso maquiagem definitiva, mas a verdade é que o fato de colocar a maquiagem de manhã e retirar a noite faz parte de um ritual de rotina que me mantem segura e me faz encontrar comigo mesma todas as manhãs.

Minha casa está sempre impecável e os imprevistos na rotina não são bem vindos. Não saio sem lavar a louça ou arrumar a cama, não que isso vá me fazer mal, mas pensar em entrar em casa com algo fora de ordem me gera medo e medo não é bom para mim. Choro com facilidade, mas sou capaz de não derramar uma lágrima sequer caso eu seja responsável por segurar as dores dos outros…

Me alimento sempre das mesmas coisas, tomo sempre as mesmas bebidas e todas as vezes em que tentei frequentar uma academia de musculação foi um verdadeiro desastre, até o dia que resolvi montar minha própria academia em casa.

Tenho medo de insetos, barulhos muito altos me incomodam e praticamente não sinto dor, quando sinto é porque já chegou ao nível avançado para qualquer ser humano. E quando a dor vem, ela pode ser potencialmente mais forte em mim do que a maioria das pessoas.

Sou literal ao extremo, falo demais, faço movimentos e expressões de menos – aprendi há uns dois anos a me expressar melhor… e geralmente não sei a hora de parar de me explicar…

Por outro lado, sou uma pessoa alegre, cheia de sentimentos, de sonhos, de desafios, amo amar as pessoas, sou fascinada por música e seriados, tenho paixão por tratamentos estéticos e amo pessoas com necessidades especiais…

Sei lá, eles tem um valor diferente sobre as prioridades da vida. Adoro sexo, sim! Autistas fazem sexo, se apaixonam, amam. Isso é um tabu, eu sei, mas independentemente do comprometimento de cada um, temos um corpo físico, cheio de hormônios e com as mesmas necessidades de líquidos, alimentos e – sexo!

Quando gosto de algo, gosto para valer, me apego facilmente, adoro pessoas, adoro enrolar fios de linha entre meus dedos e também tenho fascínio por temporais… Sou muito inteligente naquilo que me interessa, como dirigir, cantar, escrever, amar, me doar ao próximo. Nas faculdades que fiz tirava dez nas matérias relacionadas ao lado humano, mas tirava zero nas disciplicas ligadas às exatas.

Sou o contrário da maioria dos autistas que têm bom desempenho com números.

Nunca fui muito inteligente e sempre fui voltada para a área de desenvolvimento pessoal.

Não gosto de multidões, odeio mentiras e sou excelente em executar missões que me são confiadas. Meu coração é incapaz de reter mágoas, raiva ou qualquer coisa que seja destrutiva. Sofro muito quando sou mal interpretada, mas se ganho um presente sou eternamente feliz desde o momento em que vejo a embalagem…

Flores me fazem sorrir, sangue me faz chorar, palavras doces me fazem amar.

Os toques suaves na pele me doem, mas a pressão feita com força e intensidade me levam ao paraíso. Corto meu próprio cabelo, faço minhas unhas, lavo meu carro, limpo minha casa.

O que mais dói é o preconceito, a pré determinação do que acham de mim, das deduções sobre mim que geralmente não são verdade e da falta de honestidade sobre as coisas da vida…

Essa sou eu, sou do bem, sou única, tenho um DNA exclusivo e minha própria forma de enfrentar as dificuldades.

Pare para pensar em quem você conhece que não tenha suas manias e esquisitices… Por isso eu amo a diversidade, aos vários modelos de famílias existentes e, acima de tudo, eu amo as pessoas, as suas almas e as suas histórias de vida.

Sou humana, amo a vida e me aceito como sou.

Tudo o que faço é para motivar pais, mães e autistas a lutarem pelos seus sonhos.

O que molda sua vida? O tanto de conhecimento que você adquire ou a forma como você o utiliza? Certamente a segunda opção.

Todos os seus caminhos são determinados pelas decisões que você toma ao longo de sua trajetória. Há uma força em seu interior que o torna capaz de superar quaisquer obstáculos e, a ausência de ansiedade, com certeza é o que te proporciona ter a tranquilidade de entender que o seu esforço sempre será recompensado.

Autismo é vida – me ame como sou

Beijo muito carinhoso,

Fiquem com Deus

KenyaDiehl