Minha vida autista (parte 4) – O desenvolvimento da fala

Segundo minha mãe, falei bem cedo, por volta de um ano. Um vocabulário com poucas palavras, mas todas ditas com perfeição, geralmente frases prontas e inteligentes. Com cerca de três anos resolvi não falar mais, a sensação ao tentar falar era de cansaço, de falta de ar e de “preguiça” de me fazer entender. Passei a apontar para as coisas, junto com a “mania” de enrolar incansavelmente fios de linha ou de cabelos pelos dedos.

          Não caiam no engano de acreditar que seus filhos não os escutam e não os entendem somente por não utilizarem a linguagem verbal. Talvez ordens mais complexas sejam difíceis de serem assimiladas, porém, a compreensão ainda que deficiente se faz presente e a lembrança tende a não ser apagada pelo resto da vida. Acontecimentos aparentemente insignificantes para um neurotipico podem ter um peso potencialmente forte na cabeça de um autista.

          Eu escutava tudo, falava somente em casos extremos, se escutava música chorava, pois sentia cada emoção passada pela canção, fosse qual fosse. E, de certa forma, não falar me trazia uma série de vantagens, como por exemplo não ser xingada pelas coisas que eu pensava e também por não ser forçada a não fazer o que eu não queria, como comer alimentos que me faziam vomitar ou interagir com crianças da minha idade. Então, meu silêncio me protegia em meu próprio mundo.

          Aos nove anos, como relatei no capítulo anterior, recebi o primeiro diagnóstico de autismo e, por pressão e medo de uma internação passei a falar. Não parei mais, falar se tornou algo incontrolável, cansativo e sem filtro algum, fui expulsa de rodinhas de amigos, excluída de trabalhos escolares e motivo de piada para muita gente. Eu não conseguia perceber até que ponto eu poderia falar o que eu sentia e pensava e também não selecionava com quem falava, na verdade eu respondia a quem me chamava e puxava assunto com qualquer um que aparecesse pelo caminho. Meus pais trabalhavam fora e acabei ficando vulnerável e caindo em mãos de pessoas maldosas, sofri graves consequências da minha falta de noção e passei o fim da infância, adolescência e parte da minha juventude reconhecida como a louca inconsequente que fazia tudo o que os outros mandavam e falava tudo o que perguntassem.

          Apenas com trinta e dois anos, já casa e mãe, passei uma das maiores humilhações de minha vida e finalmente aprendi que precisava me proteger, mudar de vida, conquistar meu espaço no mundo e escolher com quem me envolver, para que o mundo parasse de me engolir. A posição de vítima nunca me caiu bem, muito embora durante a minha vida eu tenha sido alvo de pancadas, piadas, abusos de todas as espécies… Sempre acreditei que era melhor ter fé em coisas boas do que acreditar que a humanidade era ruim. Me apeguei ao fato de que, se por um lado eu tinha dificuldade de aprender, por outro lado eu tinha uma facilidade imensa de copiar. Passei a analisar pessoas bem-sucedidas, que venceram seus maiores dramas e buscava saber como aquelas pessoas haviam conseguido sair de uma situação de caos para uma situação de paz… Isso me ajudou muito a não desistir, muito embora eu tenha sentido essa vontade muitas vezes.

          Falar, por fim, se tornou um hiperfoco, quando passei a não querer mais fazer parte de círculos de amizades e de vida de pessoas que não me aceitavam eu consegui me conhecer melhor, desenvolver minha ideias da melhor maneira possível e transmitir meus pensamentos e sentimentos pela internet através das redes sociais. Assim me tornei palestrante e hoje utilizo minhas palavras de forma que eu consigo ajudar autistas e familiares a entenderem melhor os sentimentos e os mistérios que envolvem o universo autista.

          Difícil hoje em dia ainda é saber a hora de parar de falar, assim como conter a ansiedade para falar quando as ideias vêm à mente. Manter um diálogo coerente é complicadíssimo. Prefiro milhões de vezes manter uma conversa por aplicativo de mensagens do que pessoalmente, porque na segunda opção eu certamente vou parecer uma louca falando. Nas palestras eu uso apps que me lembram de mudar de conteúdo para não me empolgar e seguir trocando de assunto. Nos vídeos, não raro preciso gravar várias vezes até conseguir um que se aproveite. É complicado, cansativo. Eu canto muito para gastar minha quota de palavras diárias e se eu não gastar eu choro, choro muito, muito mesmo. Daí meu fascínio pela escrita, é nas palavras que descarrego minhas emoções, meus sentimentos e meus pensamentos sobre as coisas da vida.

          Acredito que todo o meu período de isolamento se converteu em expansão, porém eu também preciso igualmente me isolar para me reorganizar, ficar sozinha faz parte do meu equilíbrio não é por mal, é saudável e é essencial para que as coisas andem bem para todos. Esse agito e essa velocidade de pensamentos precisa de pausa, um freio e isso precisa ser respeitado para que as coisas se ajeitem.

Falar não é apenas proferir palavras. É um processo complexo que envolve deglutição de ar, articulação de língua com dentes, conexão de pensamento com emoção, com som… É toda uma construção que parece natural para pessoas que não tem autismo, mas para quem tem autismo é complicado porque sentimos tudo de forma separada, por partes e com intensidades diferentes. Tenha paciência, junte as peças do quebra-cabeças do autismo e veja onde está a dificuldade, diminua os demais estímulos para que o essencial seja conectado. Acredite! É possível, e se a fala não vier, existem outras lindas formas de comunicação tão eficientes quanto a comunicação verbal, o tempo irá te dizer qual a melhor forma e caminho você deverá seguir.

Continua no próximo post…

Kenya Diehl

Autista, Consultora em Autismo, Escritora

Palestrante e Colunista na revista Ser Autista

Minha vida autista (parte 3) – Os sintomas

Falar em sintomas de autismo é, ao mesmo tempo, algo simples e complicado. Muitas pessoas chegam a mim se dizendo tímidas, com dificuldade de olhar nos olhos, necessidade de rotinas ou outros sintomas compatíveis com o autismo e me questionam se existe a possibilidade de elas serem também autistas. Mas o autismo, apesar de estar cada dia mais sendo desmistificado, é um universo ainda cheio de mistérios, de limitações e dificuldades que nos colocam em situação de isolamento, solidão e depressão. É, portanto, um transtorno de difícil diagnóstico, sobretudo em adultos.

          No meu caso, os sintomas apareceram quando eu ainda era um bebê, mas obviamente foi ser percebido anos depois, quando a escola começou a estranhar meu comportamento. Eu tinha cerca de cinco ou seis anos quando pela primeira vez minha mãe foi chamada na escola e orientada para que me levasse ao médico, pois havia “algo errado” comigo, “talvez autismo mamãe” – disse a orientadora que conversava com minha mãe. Em uma época em que autismo era sinônimo de demência e completa incapacidade como um todo, conhecido popularmente como uma “doença mental”. Minha mãe dizia que eu era uma menina boazinha demais e que eu não era doente. Eu apenas não me relacionava com ninguém, não comia quase nada, não dormia direito, urinava na cama, não falava, não brincava e chorava muito. Depois de muita reflexão minha mãe se lembrou que eu era um bebê que não chorava, que não me apegava a nada, não me mexia no berço e poderia me deixar uma manhã inteira deitada no balcão da cozinha porque eu simplesmente não me virava, era um bebê quase que de brinquedo…

          Quando comecei a andar, descobri um mundo novo, me distraía facilmente com objetos e não dava a mínima para as pessoas. Tinha um sério problema em dividir alimentos ou compartilhar objetos e me atinha a uma mania por época. Teve a época de brincar de contar grãos de feijão, a época de enrolar fios de todos os tipos, a época de enfileirar bonecas e por aí vai. Eu sabia falar, mas me recusava a falar e na maior parte do tempo eu simplesmente não conseguia falar. O desenvolvimento pleno da fala veio aos nove anos, coincidentemente após o diagnóstico, quando minha mãe me levou a um neuropediatra porque era a quarta vez que chamavam ela na escola falando sobre o autismo e aquela época eu cheguei a um estágio de enxaqueca em que eu não conseguia mais sair da cama. As faltas escolares eram frequentes, eu não tinha hábitos de higiene como tomar banho, escovar os dentes ou lavar os cabelos e cortar as unhas. Eu não gostava de cabelos bagunçados, não suportava roupa suja (com manchas), mas para mim se estivesse cinco dias com a mesma roupa e ela não estivesse manchada, então estava bom…

          Ao sair da consulta recebi uma bronca de minha mãe, depois de vomitar em um dos ônibus que tomamos para voltar para casa. Ela foi bem direta, disse que eu não era doente, que eu sabia falar e que precisaria me esforçar porque senão a escola não iria mais me aceitar e, como não tinha ninguém para me cuidar, eu teria que ser internada. Aquilo me gerou pânico, entrei em desespero e passei a falar. Não considero errada a atitude de minha mãe, pois ela tinha outros dois filhos para sustentar e realmente não poderia largar tudo outra vez para cuidar de mim. Ela já havia deixado o trabalho em uma tentativa frustrada de me deixar em uma creche, em que eu só gritava e não me aguentaram lá.

          A exposição à pobreza, à dor, angústia e solidão me obrigaram a me adaptar – ou pelo menos tentar – ser um pouco mais “normal”. Mas sempre fui um “peixe fora d’água”, um “ponto fora da curva”, uma criança que, de especial não tinha nada. Conhecia sim a exclusão, o bullying, a carência afetiva, os medos, os enjoos, as crises, a dificuldade de compreender as regras, os contextos e os estranhos comportamentos das pessoas. Elas falavam sobre eu não tomar banho, claro que eu queria tomar mais banho, porém, o medo do banheiro me impedia de frequentá-lo com continuidade, mas essas mesmas pessoas tomavam banho e se enchiam – conscientemente – de desodorantes que ardiam o nariz e deixavam gosto amargo na garganta. Difícil demais entender as regras sociais, a prioridade que as pessoas davam para outras pessoas que as traiam e falavam mal delas. Os meus objetos me eram muito previsíveis, eu sempre sabia como eles funcionavam e o que poderia esperar deles. As pessoas eram instáveis, ora amavam e pegavam no colo, ora expulsavam e berravam sem motivo. Definitivamente eu preferia ficar com os objetos ao invés de ficar com as pessoas.

          Apesar de melhorar a minha capacidade de me relacionar com as pessoas, isso nunca representou de forma alguma que eu tivesse, de fato, um bom relacionamento com quem quer que fosse. Minhas manias só mudavam de nome, mas eu continuei diferente, inaceitável pelo mundo e isolada em meu próprio casulo.

          Sofri humilhações das mais diversas, apanhei, tive minhas coisas roubadas, sofri abuso físico e emocional, perdi minha infância antes do tempo, cheguei a morar na rua, perdi a fé nas pessoas, mas nunca perdi minha fé em Deus.

          Atualmente tenho ainda minhas manias, minhas limitações, uma forte sensibilidade sensorial e muita dificuldade na comunicação. Pois é, sou escritora, palestrante e tenho dificuldade na comunicação, isso porque eu falo demais, não consigo ter os filtros necessários para manter as pessoas perto de mim, lhes digo o que penso, de forma carinhosa, mas digo, isso infelizmente não é bem visto pela sociedade como um todo. Muito embora a lei seja clara, tanto na lei dos homens, como nas leis de Deus, de que não se deve mentir, as pessoas preferem mentiras do que ouvir verdades que não lhes caem bem. Estão acostumadas a disfarçar sentimentos, descontam em bebidas, em vícios e outras coisas destrutivas todos aqueles sentimentos que foram impelidas a guardarem dentro de si. E me refiro tanto a sentimentos bons como a sentimentos ruins, porque tive também experiências ruins quando demonstrei sentimentos bons, por exemplo, ao gostar demais de uma pessoa e enchê-la de presentes, agrados e elogios e acabar sendo questionada sobre minhas intenções, fui julgada de estar querendo obter algo em troca de toda a manifestação de carinho que demonstrei, isso foi realmente muito decepcionante.

          Chorar em público, ter sensibilidade sensorial com sons, cheiros, gostos e texturas, não saber a hora de falar ou a hora de precisar parar de falar, falta de noção em quem confiar, dificuldade de aprendizado em muitas coisas e excesso de conhecimento em outras, desejo e necessidade de trocar repentinamente de ambiente… São coisas que prejudicam a minha vida, me impedem de trabalhar em uma empresa “comum”, dificultam minha relação com amigos e familiares e me coloca em situação de vexame muitas vezes em minha vida, sintomas do autismo que nunca vão embora, eles podem até diminuir em algumas fases, posso aprender a me proteger, escolher melhor com quem me relacionar, mas não impedem infelizmente de me fazerem sofrer. Porque o autismo é algo complexo, que faz parte do meu funcionamento e que muitas vezes na vida me fez pensar em desistir de viver, mas que com a graça de Deus sempre fui mais forte e sempre tive uma capacidade imensa de acreditar que tudo, um dia, terminaria bem…

          Por vezes me pego pensando em como será minha transição para a terceira idade e aí desisto de pensar nisso porque sei que cada ser humano é único, cada pessoa é uma pessoa antes de ser autista. O traço autista nunca irá embora, cada dia mais eu tenho a expectativa de aprender a me proteger, saber me isolar nos momentos certos e ensinar meu filho a agir da mesma forma. O fato de saber que preciso seguir regras sociais, mas que não preciso me agredir para isso me salva de sofrimentos desnecessários, tipo, não preciso ser grossa com ninguém ao ser sincera e indelicada, mas não preciso me maltratar e ir contra meus princípios somente por “ter que seguir” regras impostas pela sociedade. Ter equilíbrio é fundamental para qualquer pessoa, mas encontrar esse equilíbrio é uma regra de ouro para uma pessoa com autismo.

Continua no próximo post…

Kenya Diehl

Autista, Consultora em Autismo, Escritora

Colunista da revista Ser Autista

Minha vida autista (parte 2) – Os primeiros anos…

Sou a terceira e última filha. Minha mãe engravidou de mim aos trinta e nove anos, com dois filhos pequenos e muita dificuldade financeira, nasci no ano de 1983, naquela época não havia a tecnologia que se tem hoje, era complicado o acesso a tratamentos de saúde física ou psíquica, especialmente se a pessoa fosse de origem humilde.

          Segundo relatos de minha mãe, nasci com as marcas de arranhões no pescoço, havia duas circulares do cordão umbilical e eu estava sentada. Minha mãe, sob efeito de anestesia geral e uma laqueadura feita no momento do meu nascimento. Ela conta que fui um bebê calmo, com olhar parado e ausência quase que total de choro. Para ela, foi fácil cuidar de mim, pois bastava me deitar no balcão da cozinha para que ela pudesse seguir com seus afazeres, eu não me virava, não rolava, não me mexia, não caía. Aceitava o leite materno, mas se não tivesse também não fazia diferença. Pegava objetos pelas mãos, mas se me tirassem não tinha choro, não atirava coisas no chão para as pessoas juntarem, não fazia birras, não exigia atenção. Eu era um bebê que toda mãe queria ter, a famosa bebê que “não dá trabalho”, mas aí já fica o meu primeiro alerta para os pais e mães, bebês calmos demais e indiferentes, sem manifestação de vontade ou descontentamento já são um sinal de alerta e um pedido de encaminhamento para avaliação com pediatra competente que possa seguir o protocolo de avaliação e já se ter uma noção sobre o risco dessa criança desenvolver o autismo.

          Aprendi a andar e a falar cedo, porém, falava apenas o necessário, com a pronúncia perfeita e o português impecável. Andava de um lado para outro e o olhar sempre se voltava para o céu. Minha preferência era brincar com pedras, areia, gravetos e feijões. Tive seletividade alimentar já nos primeiros alimentos experimentados, demonstrava sensibilidade com certas texturas, cheiros e preferia sempre as mesmas coisas. Rejeitei o leite do peito por volta de um ano e meio de idade sob a alegação de que “aquele leite estava velho”.

          Pode-se perceber que pelos relatos de minha mãe, eu era um bebê nitidamente atípico, ela sabia que eu era diferente, mas ela me amava, adorava esse meu jeito estranho de ser, muito embora ela se lembre com certa tristeza de que algumas pessoas me julgavam como chorona, enjoada e egoísta. Na verdade, eu sentia medo, solidão e tinha (tenho até hoje) muita dificuldade em compartilhar objetos. Mas sempre fui silenciosa, educada, recatada, discreta e não incomodava ninguém.

          Minha primeira lembrança enquanto ser humano é a de um homem entrando pela porta da sala, vestido de vermelho, com um grande saco vermelho nas costas e uma máscara de plástico que deveria ser a representação de Papai Noel. Quando vi aquele homem, entrei em pânico, chorei muito, me agarrei à minha mãe, que me pegou no colo e todos tentavam me convencer de que aquele era o Papai Noel e que ele era legal. No auge de meu desespero o homem fez menção de retirar a máscara para me acalmar, mas meus gritos ficavam cada vez mais altos. Eu escutava a voz dele distorcida e, a cada palavra que ele dizia, a máscara se movia de forma trêmula pela face dele. Eu via o buraco dos olhos da máscara e aquilo me dava verdadeiro pânico, eu podia sentir o cheiro do plástico, o vermelho intenso de suas vestes e o susto de ele ter aparecido ali, do nada, sem avisar ninguém. Comecei a me debater, berrar e, por fim, minha última lembrança desse momento foi adormecer nos braços de minha mãe e depois acordar no berço (eu tinha apenas dois anos) com fortes dores pelo corpo.

          Nossa vida não era fácil, minha mãe trabalhava até de madrugada produzindo lanches para venda, meu pai era assalariado e nossa casa era alugada, de madeira, tínhamos naquela época dois pequenos quartos, uma sala e uma cozinha. Conforme nossa situação foi piorando, meus pais precisaram ir vendendo as coisas de dentro de casa para ajudar a comprar alimentos para nós, eram dois adultos, três crianças e uma renda baixíssima que mal dava para pagar o aluguel.

          Assim fui crescendo, com a confiança na minha mãe, eu tinha verdadeira adoração por ela, era minha razão de viver e o resto do mundo não me importava, desde que ela pudesse estar próxima a mim. As poucas tentativas de saídas sem ela sempre terminaram em choro, crises e alguém muito bravo comigo porque eu não havia conseguido cooperar. Mas para minha mãe estava sempre tudo bem, nem passava pela cabeça dela que eu pudesse ter algum tipo de transtorno.

          Nossa situação era bem difícil, nossa primeira grande perda (desde que eu vim ao mundo) foi a casa em que morávamos em Guaíba/RS. Uma enchente veio e levou tudo embora, o que mais me vem em mente quando lembro daquele dia, foi ver minha família junto com demais famílias do bairro serem retiradas de lá na caçamba de um caminhão. Coisas gigantescas sempre me fascinaram e eu me sentia como uma formiguinha navegando em uma folha. Então minha próxima lembrança já é de nós todos instalados na “nova” casa de aluguel que conseguimos com parentes.

          Eu estava crescendo e as despesas da casa estavam cada dia mais difíceis de serem mantidas pelos meus pais. Minha mãe precisou contar com a ajuda de uma moça para cuidar das crianças para que ela pudesse trabalhar, caminhar mais, vender mais, cansar mais, mas ela lutava e não desistia. Certo dia, a moça que me cuidava (só me lembro das pernas dela, o rosto se apagou), me colocou dentro de um tanque que havia embaixo do chuveiro, aqueles tanques antigos de cimento, minha mãe havia colocado ali para facilitar o banho das crianças, tudo era improvisado, até os móveis da casa era ela quem fazia. Eu chorava muito, a água estava fria, gelada, o chuveiro desligado da rede elétrica, aquela água doía na minha pele como se estivesse me queimando e me congelando ao mesmo tempo, meus cabelos finos e embaraçados eram puxados por rústica escova amarela de cerdas de nylon e, conforme eu gritava, ela batia na minha cabeça com a escova. Minha mãe chegou e viu a cena, eu roxa de frio, sem ar de tanto gritar e apanhando na cabeça. Ela botou a moça para fora e eu fiquei me sentindo culpada por ter gritado tanto. Ficava me lembrando de tudo o que a menina tinha feito, como por exemplo, nos dar água com Nescau enquanto ela mesma tomava nosso leite que era tão batalhado por minha mãe. Na minha mente era difícil entender as escolhas das pessoas, não sabia sentir raiva, pena ou medo, precisava escolher os sentimentos, algo que me parecia tão instintivo nas pessoas normais, me era tão complicado e se fazia necessário selecionar em minha mente, complicado demais fazer parte desse mundo, confuso, cansativo e assustador.

          Seguimos nossa sem a ajuda de ninguém, até o dia em que minha mãe cansou, em atitude impulsiva e impensada colocou uma placa na frente de casa vendendo tudo a troco e nos levou embora para São Paulo. Ela acreditava muito que nossa vida seria muito melhor na cidade grande, eu tinha apenas três anos e meu isolamento social nessa época se tornou severo. As coisas não foram como esperávamos, passamos fome, vivemos na miséria, no caos e ali foi o início do fim, seguido pelo começo de uma nova fase ruim que parecia que nunca iria acabar. Minha vida parecia um erro, uma sucessão de falhas, achava que havia sido esquecida por Deus, não entendia como poderia alguém ter uma existência tão inútil como a minha e apenas sobrevivi, adormecida por anos a fio, humilhação sobre humilhação, noites frias após noites frias, fome após fome, medo após medo, sempre com fé em Deus e a certeza de que um anjo iria me salvar da agonia que era a minha vida.

Continua na próxima edição…

Kenya Diehl

Autista, Consultora em Autismo, Escritora

Colunista da revista Ser Autista

Minha vida autista (parte 1) – O início de tudo

Era detarde, uma brisa suave pairava pelo ar, olhei para o céu e vi as folhas doabacateiro se movimentando lentamente com o vai e vem do vento que lhestocavam. Nos fundos da minha humilde casa tinha uma parte composta de terra,mato e… o abacateiro… Nunca me esqueço de como aquilo me fascinava, comopoderia aquela árvore tão linda habitar – e dar frutos – em ambiente tão feio esofrido?

Naqueledia eu estava triste, nada me consolava e a saudade de minha mãe me corroía aalma, ela era a única pessoa no mundo capaz de me entender, mas ela precisavatrabalhar. Com oito anos de idade, pouca habilidade na linguagem verbal e semamigos, parentes ou vizinhos que pudessem me apoiar, eu me sentia sozinha, commedo e, de certa forma, inútil para o mundo.

Observeipor dias a minha mãe acender o bico do fogão com palitos de fósforos, minhahabilidade em aprender era péssima, mas em copiar gestos e ações sempre foiincrível. E então naquela tarde peguei uma garrafa de álcool, uma caixa depalitos de fósforos e fui para perto do abacateiro. Na mureta havia um buraco,ali coloquei um dente de alho, molhei com álcool e acendi um fósforo. Fiqueifascinada com aquela chama subindo e, com uma vontade mais forte do que eu,despejei todo o conteúdo da garrafa de álcool em cima daquele fogo. Boom! A garrafa explodiu em cima de mim,me virei na mesma velocidade da explosão, o fogo atingiu meus longos cabelosnegros e compridos, saí correndo pelo quintal, aos berros e com muita dor.Sentia o fogo subir pelas minhas costas, queimar minhas roupas e quanto mais eucorria, mais o fogo subia.

Umavizinha que havia comprado algumas camisetas, chegou bem no momento em que euincendiava, pulou a grade, jogou as camisetas sobre o fogo e me atirou no chão,fazendo com que eu rolasse de um lado para o outro. O fogo se apagou, elaparecia um anjo me olhando e, dos gritos de pavor, passei a chorar emdesespero. Meus cabelos já não estavam mais ali, foram consumidos pelas chamas,mas com sorte não chegou a atingir a cabeça. Meus cílios e sobrancelhassumiram, minha testa ficou como se tivesse cola, uma bolha nas costas e uma dorna alma. Deus me deu mais uma chance e a lição de que, acabar com a própriavida, não resolve o problema de ninguém…

Esse foi um dos momentos de dificuldade que minha mente autista teve que enfrentar, sem entender o porquê de eu ser tão diferente das pessoas, sem entender a razão de todos me ignorarem e onde estava Deus que parecia ter esquecido de mim em uma existência conturbada e tão cheia de dor. O autismo me isolou, complicou o que já era difícil, dificultou ainda mais a pobreza em que eu vivia, mas o autismo me proporcionou “anestesiar” tudo isso na maior parte do tempo, minha literalidade ajudou a manter a frieza necessária para superar as dores e a doçura indispensável para conquistar as melhores pessoas ao longo de minha jornada…

Continua na próxima edição…

Kenya Diehl

Autista, Escritora, Colunista da Revista Ser Autista

Consultora em Autismo, Palestrante e Empresária

O dia-a-dia da conscientização do autismo

Muitas vezes a consciência sobre o autismo começa com uma conversa ou até mesmo com o que seria uma briga. Em momentos de lazer, de um simples trajeto de carro de aplicativo ou em um momento de reunião familiar.

Sabemos que é cansativo, que temos vontade de sentar e chorar, de jogar tudo para o alto e esquecer esse papo de ser forte o tempo inteiro. Mas se quisermos mesmo um mundo melhor, então nossa fraqueza só pode durar uns poucos instantes e logo precisamos restabelecer nossas forças e seguir firmes na luta.

Nada como bom humor, cordialidade e educação para mostrarmos que o autismo não é o bicho de sete cabeças que inventaram e espalharam por aí. Falar de autismo é também falar de amor, falar de nossos direitos, mas falar sobre quem somos, porque temos necessidades especiais e qual a melhor forma de nos ajudar quando estivermos em apuros.

Veja, abaixo, alguns relatos de experiências positivas com a conscientização do autismo, que fizeram a diferença na vida daqueles que se envolveram com a causa e colheram muito além do que simples informações:

Opa… Sempre que posso puxo o assunto com os motoristas de aplicativo que chamo, e tbm não é incomum encontrar pessoas que já possuem alguém na família mas que não tinha contato, ou que não sabia lidar com os membros da família.

Tbm não é difícil encontrar pessoas q não conhecem adultos autistas, ou que acham q o autismo é curado quando a criança cresce. E consigo desmistificar essa ideia citando o meu exemplo ou a do meu marido dos quais possuímos muitos traços típicos mas distintos e que nos encaixa dentro do espectro.

Meu marido não se sente confortável em falar ou puxar o assunto com pessoas q não conhece, mas eu sempre q posso puxo.

Minha última experiência foi com um motorista árabe recém chegado aqui no Brasil, ele nem ao menos sabia o q era autismo e eu falando de algumas características ele me dizia conhecer pessoas na família dele assim rs uma pena minha viagem ter durado apenas meia hora.”

Bruna Melo

“Eu tento com a minha família. Sem q eles possam se sentir culpados por eu não ter tido atendimento desde pequena”

Roseli Claro

“Sempre que tenho a oportunidade, tento aproveitá-la ao máximo. Funciona com as pessoas estranhas que encontramos ao longo do caminho, que tornam-se nossos amigos. Entre os familiares, nem tanto, é muita ausência. Mas devagar, chegaremos lá.”

Betinha Gouvêa

“Uma amiga minha que se aposentou, está dando aulas particulares e está se especializando em educação especial.”

Luciana Stringhini

“Bom dia minha linda , Como sabe meu filho E adotivo e Índio, imagine como é, a inclusão, o primeiros a serem concitizados foram minha família, fiz um grupo no watts para postar pdf ,assim eles poderiam lelerem sem precisar procurar muito, minha família foi fácil aceita ele como ele é ele muito amado, o segundo a ser explicado oque é o autismo foi o padeiro , pois ele é Gustavo se entenderiam desde o começo, pois sempre que ia a padaria eu colocava o Gustavo para comprar aí fui explicando ao dono da padaria oque era o autismo tando que ele hoje e nosso aliado na luta, novamente foi no mercado , sempre o colocava para ir pesar os alimentos ver preços, e nisso fui difundindo o autismo no mercado, terceiro a abençoada escola essa me deu trabalho , era conhecida como a mãe fogo, mas consegui me fazer ser ouvida , depois não me conformei , pois fui lendo não do autismo leve mas sobre todos e as dificuldades pois em minha cidade agora que vamos ter um espaço, fiz abaixo assinado nas redes sociais mandava para vereadores, ou seja todo político recebeu o abençoado abaixo assinado, aí fui ouvida por um vereador , mas quando se fala em dinheiro em lutas são poucos os que te ouve, mas formamos um grupo de mães, assim teríamos mais força, agora teremos o Centro pôs um deputado federal do meu município abraçou a causa com louvor, sou mesmo fogo quando quero algo para os outros, fiz do Autismo do Gustavo minha luta por todos , leves, moderados e graves, tivemos o segundo encontro de familiares de autista. Ou seja a Cidade acordou que temos autistas sem atendimento. Perdão, mas se for pra falar falo muito.”

AutismocacoalTea

“Estes dias estava com meu filho no supermercado e uma pessoa veio falar comigo. Perguntou se eu lembrava dela, tenho péssima memória mas lembrei q ela trabalhou ano passado na escola em que atuo como dentista. Ano passado fiz o que chamo de bate papo azul no HTPC dos professores desta escola estadual. Dinâmica, passei uns slides sobre meu filho e conversamos sobre inclusão. Esta professora estava presente neste dia. Neste nosso reencontro ela contou-me que ficou mechida em nosso bate papo e que posterior a ele procurou cursos de educação inclusiva e estava fazendo em atendimento educacional especial . Enchi o coração de alegria, minha sementinha azul brotou!!!”

Rubia Maldonado

“Percebi, através de conversas e de observações, que uma amiga não percebia o autismo da filha. Contando a ela sobre o caso do meu filho e sobre casos dos filhos das amigas, convidando-a para palestras sobre o assunto, ela reconheceu e se declarou espantada por não ter percebido antes.”

Luciana Honorato

“Eu converso com amigos..depois esses amigos quando vêem algum caso, falam a meu respeito..As pessoas acabam me procurando para saber mais sobre o autismo…Muitas vzs tem suspeita de um filho ou alguém na família…É bom poder ajudar”

Kellen Luziene Alves

Tudo aquilo que não podemos remediar, alterar ou curar, podemos optar pelo esquecimento e desejar a felicidade a cada instante. E o que podemos, devemos lutar bravamente, pois desde modo conseguiremos sentir verdadeiramente a felicidade e espalhar amor ao nosso redor, iluminar as pessoas à nossa volta e só permitir que sentimentos de positividade saiam e retornem livremente da atmosfera que nos cerca. Assim, com “pequenos grandes” passos seguimos na caminhada do bem, nos concentrando no amor, acreditando na positividade, na união, na verdade que liberta os corações que ainda sofrem a dor da exclusão. Não podemos nos deixar abater pelo cansaço dos que já desanimaram e nem pela maldade dos que nada fazem para melhorar o mundo. Precisamos seguir fortes e conscientes de nossa missão!

Bora lutar por um mundo melhor? A conscientização vai muito além do mês de abril, a luta é no dia-a-dia, é o ano inteiro , em cada oportunidade.

Vem comigo!

KenyaDiehl®️

Autista e mãe de autista

Escritora, Blogueira e Palestrante

Colunista da Revista Ser Autista