Minha vida autista (parte 1) – O início de tudo

Era detarde, uma brisa suave pairava pelo ar, olhei para o céu e vi as folhas doabacateiro se movimentando lentamente com o vai e vem do vento que lhestocavam. Nos fundos da minha humilde casa tinha uma parte composta de terra,mato e… o abacateiro… Nunca me esqueço de como aquilo me fascinava, comopoderia aquela árvore tão linda habitar – e dar frutos – em ambiente tão feio esofrido?

Naqueledia eu estava triste, nada me consolava e a saudade de minha mãe me corroía aalma, ela era a única pessoa no mundo capaz de me entender, mas ela precisavatrabalhar. Com oito anos de idade, pouca habilidade na linguagem verbal e semamigos, parentes ou vizinhos que pudessem me apoiar, eu me sentia sozinha, commedo e, de certa forma, inútil para o mundo.

Observeipor dias a minha mãe acender o bico do fogão com palitos de fósforos, minhahabilidade em aprender era péssima, mas em copiar gestos e ações sempre foiincrível. E então naquela tarde peguei uma garrafa de álcool, uma caixa depalitos de fósforos e fui para perto do abacateiro. Na mureta havia um buraco,ali coloquei um dente de alho, molhei com álcool e acendi um fósforo. Fiqueifascinada com aquela chama subindo e, com uma vontade mais forte do que eu,despejei todo o conteúdo da garrafa de álcool em cima daquele fogo. Boom! A garrafa explodiu em cima de mim,me virei na mesma velocidade da explosão, o fogo atingiu meus longos cabelosnegros e compridos, saí correndo pelo quintal, aos berros e com muita dor.Sentia o fogo subir pelas minhas costas, queimar minhas roupas e quanto mais eucorria, mais o fogo subia.

Umavizinha que havia comprado algumas camisetas, chegou bem no momento em que euincendiava, pulou a grade, jogou as camisetas sobre o fogo e me atirou no chão,fazendo com que eu rolasse de um lado para o outro. O fogo se apagou, elaparecia um anjo me olhando e, dos gritos de pavor, passei a chorar emdesespero. Meus cabelos já não estavam mais ali, foram consumidos pelas chamas,mas com sorte não chegou a atingir a cabeça. Meus cílios e sobrancelhassumiram, minha testa ficou como se tivesse cola, uma bolha nas costas e uma dorna alma. Deus me deu mais uma chance e a lição de que, acabar com a própriavida, não resolve o problema de ninguém…

Esse foi um dos momentos de dificuldade que minha mente autista teve que enfrentar, sem entender o porquê de eu ser tão diferente das pessoas, sem entender a razão de todos me ignorarem e onde estava Deus que parecia ter esquecido de mim em uma existência conturbada e tão cheia de dor. O autismo me isolou, complicou o que já era difícil, dificultou ainda mais a pobreza em que eu vivia, mas o autismo me proporcionou “anestesiar” tudo isso na maior parte do tempo, minha literalidade ajudou a manter a frieza necessária para superar as dores e a doçura indispensável para conquistar as melhores pessoas ao longo de minha jornada…

Continua na próxima edição…

Kenya Diehl

Autista, Escritora, Colunista da Revista Ser Autista

Consultora em Autismo, Palestrante e Empresária