Minha vida autista (parte 2) – Os primeiros anos…

Sou a terceira e última filha. Minha mãe engravidou de mim aos trinta e nove anos, com dois filhos pequenos e muita dificuldade financeira, nasci no ano de 1983, naquela época não havia a tecnologia que se tem hoje, era complicado o acesso a tratamentos de saúde física ou psíquica, especialmente se a pessoa fosse de origem humilde.

          Segundo relatos de minha mãe, nasci com as marcas de arranhões no pescoço, havia duas circulares do cordão umbilical e eu estava sentada. Minha mãe, sob efeito de anestesia geral e uma laqueadura feita no momento do meu nascimento. Ela conta que fui um bebê calmo, com olhar parado e ausência quase que total de choro. Para ela, foi fácil cuidar de mim, pois bastava me deitar no balcão da cozinha para que ela pudesse seguir com seus afazeres, eu não me virava, não rolava, não me mexia, não caía. Aceitava o leite materno, mas se não tivesse também não fazia diferença. Pegava objetos pelas mãos, mas se me tirassem não tinha choro, não atirava coisas no chão para as pessoas juntarem, não fazia birras, não exigia atenção. Eu era um bebê que toda mãe queria ter, a famosa bebê que “não dá trabalho”, mas aí já fica o meu primeiro alerta para os pais e mães, bebês calmos demais e indiferentes, sem manifestação de vontade ou descontentamento já são um sinal de alerta e um pedido de encaminhamento para avaliação com pediatra competente que possa seguir o protocolo de avaliação e já se ter uma noção sobre o risco dessa criança desenvolver o autismo.

          Aprendi a andar e a falar cedo, porém, falava apenas o necessário, com a pronúncia perfeita e o português impecável. Andava de um lado para outro e o olhar sempre se voltava para o céu. Minha preferência era brincar com pedras, areia, gravetos e feijões. Tive seletividade alimentar já nos primeiros alimentos experimentados, demonstrava sensibilidade com certas texturas, cheiros e preferia sempre as mesmas coisas. Rejeitei o leite do peito por volta de um ano e meio de idade sob a alegação de que “aquele leite estava velho”.

          Pode-se perceber que pelos relatos de minha mãe, eu era um bebê nitidamente atípico, ela sabia que eu era diferente, mas ela me amava, adorava esse meu jeito estranho de ser, muito embora ela se lembre com certa tristeza de que algumas pessoas me julgavam como chorona, enjoada e egoísta. Na verdade, eu sentia medo, solidão e tinha (tenho até hoje) muita dificuldade em compartilhar objetos. Mas sempre fui silenciosa, educada, recatada, discreta e não incomodava ninguém.

          Minha primeira lembrança enquanto ser humano é a de um homem entrando pela porta da sala, vestido de vermelho, com um grande saco vermelho nas costas e uma máscara de plástico que deveria ser a representação de Papai Noel. Quando vi aquele homem, entrei em pânico, chorei muito, me agarrei à minha mãe, que me pegou no colo e todos tentavam me convencer de que aquele era o Papai Noel e que ele era legal. No auge de meu desespero o homem fez menção de retirar a máscara para me acalmar, mas meus gritos ficavam cada vez mais altos. Eu escutava a voz dele distorcida e, a cada palavra que ele dizia, a máscara se movia de forma trêmula pela face dele. Eu via o buraco dos olhos da máscara e aquilo me dava verdadeiro pânico, eu podia sentir o cheiro do plástico, o vermelho intenso de suas vestes e o susto de ele ter aparecido ali, do nada, sem avisar ninguém. Comecei a me debater, berrar e, por fim, minha última lembrança desse momento foi adormecer nos braços de minha mãe e depois acordar no berço (eu tinha apenas dois anos) com fortes dores pelo corpo.

          Nossa vida não era fácil, minha mãe trabalhava até de madrugada produzindo lanches para venda, meu pai era assalariado e nossa casa era alugada, de madeira, tínhamos naquela época dois pequenos quartos, uma sala e uma cozinha. Conforme nossa situação foi piorando, meus pais precisaram ir vendendo as coisas de dentro de casa para ajudar a comprar alimentos para nós, eram dois adultos, três crianças e uma renda baixíssima que mal dava para pagar o aluguel.

          Assim fui crescendo, com a confiança na minha mãe, eu tinha verdadeira adoração por ela, era minha razão de viver e o resto do mundo não me importava, desde que ela pudesse estar próxima a mim. As poucas tentativas de saídas sem ela sempre terminaram em choro, crises e alguém muito bravo comigo porque eu não havia conseguido cooperar. Mas para minha mãe estava sempre tudo bem, nem passava pela cabeça dela que eu pudesse ter algum tipo de transtorno.

          Nossa situação era bem difícil, nossa primeira grande perda (desde que eu vim ao mundo) foi a casa em que morávamos em Guaíba/RS. Uma enchente veio e levou tudo embora, o que mais me vem em mente quando lembro daquele dia, foi ver minha família junto com demais famílias do bairro serem retiradas de lá na caçamba de um caminhão. Coisas gigantescas sempre me fascinaram e eu me sentia como uma formiguinha navegando em uma folha. Então minha próxima lembrança já é de nós todos instalados na “nova” casa de aluguel que conseguimos com parentes.

          Eu estava crescendo e as despesas da casa estavam cada dia mais difíceis de serem mantidas pelos meus pais. Minha mãe precisou contar com a ajuda de uma moça para cuidar das crianças para que ela pudesse trabalhar, caminhar mais, vender mais, cansar mais, mas ela lutava e não desistia. Certo dia, a moça que me cuidava (só me lembro das pernas dela, o rosto se apagou), me colocou dentro de um tanque que havia embaixo do chuveiro, aqueles tanques antigos de cimento, minha mãe havia colocado ali para facilitar o banho das crianças, tudo era improvisado, até os móveis da casa era ela quem fazia. Eu chorava muito, a água estava fria, gelada, o chuveiro desligado da rede elétrica, aquela água doía na minha pele como se estivesse me queimando e me congelando ao mesmo tempo, meus cabelos finos e embaraçados eram puxados por rústica escova amarela de cerdas de nylon e, conforme eu gritava, ela batia na minha cabeça com a escova. Minha mãe chegou e viu a cena, eu roxa de frio, sem ar de tanto gritar e apanhando na cabeça. Ela botou a moça para fora e eu fiquei me sentindo culpada por ter gritado tanto. Ficava me lembrando de tudo o que a menina tinha feito, como por exemplo, nos dar água com Nescau enquanto ela mesma tomava nosso leite que era tão batalhado por minha mãe. Na minha mente era difícil entender as escolhas das pessoas, não sabia sentir raiva, pena ou medo, precisava escolher os sentimentos, algo que me parecia tão instintivo nas pessoas normais, me era tão complicado e se fazia necessário selecionar em minha mente, complicado demais fazer parte desse mundo, confuso, cansativo e assustador.

          Seguimos nossa sem a ajuda de ninguém, até o dia em que minha mãe cansou, em atitude impulsiva e impensada colocou uma placa na frente de casa vendendo tudo a troco e nos levou embora para São Paulo. Ela acreditava muito que nossa vida seria muito melhor na cidade grande, eu tinha apenas três anos e meu isolamento social nessa época se tornou severo. As coisas não foram como esperávamos, passamos fome, vivemos na miséria, no caos e ali foi o início do fim, seguido pelo começo de uma nova fase ruim que parecia que nunca iria acabar. Minha vida parecia um erro, uma sucessão de falhas, achava que havia sido esquecida por Deus, não entendia como poderia alguém ter uma existência tão inútil como a minha e apenas sobrevivi, adormecida por anos a fio, humilhação sobre humilhação, noites frias após noites frias, fome após fome, medo após medo, sempre com fé em Deus e a certeza de que um anjo iria me salvar da agonia que era a minha vida.

Continua na próxima edição…

Kenya Diehl

Autista, Consultora em Autismo, Escritora

Colunista da revista Ser Autista