Minha vida autista (parte 4) – O desenvolvimento da fala

Segundo minha mãe, falei bem cedo, por volta de um ano. Um vocabulário com poucas palavras, mas todas ditas com perfeição, geralmente frases prontas e inteligentes. Com cerca de três anos resolvi não falar mais, a sensação ao tentar falar era de cansaço, de falta de ar e de “preguiça” de me fazer entender. Passei a apontar para as coisas, junto com a “mania” de enrolar incansavelmente fios de linha ou de cabelos pelos dedos.

          Não caiam no engano de acreditar que seus filhos não os escutam e não os entendem somente por não utilizarem a linguagem verbal. Talvez ordens mais complexas sejam difíceis de serem assimiladas, porém, a compreensão ainda que deficiente se faz presente e a lembrança tende a não ser apagada pelo resto da vida. Acontecimentos aparentemente insignificantes para um neurotipico podem ter um peso potencialmente forte na cabeça de um autista.

          Eu escutava tudo, falava somente em casos extremos, se escutava música chorava, pois sentia cada emoção passada pela canção, fosse qual fosse. E, de certa forma, não falar me trazia uma série de vantagens, como por exemplo não ser xingada pelas coisas que eu pensava e também por não ser forçada a não fazer o que eu não queria, como comer alimentos que me faziam vomitar ou interagir com crianças da minha idade. Então, meu silêncio me protegia em meu próprio mundo.

          Aos nove anos, como relatei no capítulo anterior, recebi o primeiro diagnóstico de autismo e, por pressão e medo de uma internação passei a falar. Não parei mais, falar se tornou algo incontrolável, cansativo e sem filtro algum, fui expulsa de rodinhas de amigos, excluída de trabalhos escolares e motivo de piada para muita gente. Eu não conseguia perceber até que ponto eu poderia falar o que eu sentia e pensava e também não selecionava com quem falava, na verdade eu respondia a quem me chamava e puxava assunto com qualquer um que aparecesse pelo caminho. Meus pais trabalhavam fora e acabei ficando vulnerável e caindo em mãos de pessoas maldosas, sofri graves consequências da minha falta de noção e passei o fim da infância, adolescência e parte da minha juventude reconhecida como a louca inconsequente que fazia tudo o que os outros mandavam e falava tudo o que perguntassem.

          Apenas com trinta e dois anos, já casa e mãe, passei uma das maiores humilhações de minha vida e finalmente aprendi que precisava me proteger, mudar de vida, conquistar meu espaço no mundo e escolher com quem me envolver, para que o mundo parasse de me engolir. A posição de vítima nunca me caiu bem, muito embora durante a minha vida eu tenha sido alvo de pancadas, piadas, abusos de todas as espécies… Sempre acreditei que era melhor ter fé em coisas boas do que acreditar que a humanidade era ruim. Me apeguei ao fato de que, se por um lado eu tinha dificuldade de aprender, por outro lado eu tinha uma facilidade imensa de copiar. Passei a analisar pessoas bem-sucedidas, que venceram seus maiores dramas e buscava saber como aquelas pessoas haviam conseguido sair de uma situação de caos para uma situação de paz… Isso me ajudou muito a não desistir, muito embora eu tenha sentido essa vontade muitas vezes.

          Falar, por fim, se tornou um hiperfoco, quando passei a não querer mais fazer parte de círculos de amizades e de vida de pessoas que não me aceitavam eu consegui me conhecer melhor, desenvolver minha ideias da melhor maneira possível e transmitir meus pensamentos e sentimentos pela internet através das redes sociais. Assim me tornei palestrante e hoje utilizo minhas palavras de forma que eu consigo ajudar autistas e familiares a entenderem melhor os sentimentos e os mistérios que envolvem o universo autista.

          Difícil hoje em dia ainda é saber a hora de parar de falar, assim como conter a ansiedade para falar quando as ideias vêm à mente. Manter um diálogo coerente é complicadíssimo. Prefiro milhões de vezes manter uma conversa por aplicativo de mensagens do que pessoalmente, porque na segunda opção eu certamente vou parecer uma louca falando. Nas palestras eu uso apps que me lembram de mudar de conteúdo para não me empolgar e seguir trocando de assunto. Nos vídeos, não raro preciso gravar várias vezes até conseguir um que se aproveite. É complicado, cansativo. Eu canto muito para gastar minha quota de palavras diárias e se eu não gastar eu choro, choro muito, muito mesmo. Daí meu fascínio pela escrita, é nas palavras que descarrego minhas emoções, meus sentimentos e meus pensamentos sobre as coisas da vida.

          Acredito que todo o meu período de isolamento se converteu em expansão, porém eu também preciso igualmente me isolar para me reorganizar, ficar sozinha faz parte do meu equilíbrio não é por mal, é saudável e é essencial para que as coisas andem bem para todos. Esse agito e essa velocidade de pensamentos precisa de pausa, um freio e isso precisa ser respeitado para que as coisas se ajeitem.

Falar não é apenas proferir palavras. É um processo complexo que envolve deglutição de ar, articulação de língua com dentes, conexão de pensamento com emoção, com som… É toda uma construção que parece natural para pessoas que não tem autismo, mas para quem tem autismo é complicado porque sentimos tudo de forma separada, por partes e com intensidades diferentes. Tenha paciência, junte as peças do quebra-cabeças do autismo e veja onde está a dificuldade, diminua os demais estímulos para que o essencial seja conectado. Acredite! É possível, e se a fala não vier, existem outras lindas formas de comunicação tão eficientes quanto a comunicação verbal, o tempo irá te dizer qual a melhor forma e caminho você deverá seguir.

Continua no próximo post…

Kenya Diehl

Autista, Consultora em Autismo, Escritora

Palestrante e Colunista na revista Ser Autista