Minha vida autista (parte 5) – Dificuldade de socialização

Via de regra, o ser humano nasce com o desejo de viver em sociedade. Interagir com seu semelhante faz parte do desenvolvimento físico, emocional e intelectual das pessoas. A troca, a imitação, a repulsa, o exemplo, a decepção, a conquista e todo o conjunto de interação social fazem parte de um contexto em que se desenvolve a personalidade, as preferências, a moralidade ou ausência dela, a capacidade de esperar, de ceder, de lutar e de vencer.

O isolamento ao qual os autistas preferem viver gera medo, desgosto e ansiedade em pais e mães que idealizaram um filho que nasceu perfeito e que geralmente apresentou os sintomas do autismo ainda na primeira infância. E esse medo tem fundamento, é legítimo e totalmente compreensível, porém, é preciso reagir, buscar forças, ter fé e, sobretudo, buscar conhecimento e recursos para ajudar o filho, agora autista, a superar seus maiores bloqueios e conseguir ao menos dividir-se entre seu perfeito universo autista e a sociedade como um todo.

O que é importante ressaltar aqui é que, na verdade não existe o desejo por parte da pessoa com autismo em se isolar, o que existe é a necessidade de ficar sozinho perante a incompreensão das pessoas com as nossas dificuldades, o desinteresse pelos nossos pensamentos, a cobrança pelo que querem que sejamos e o tanto de recusa que sentimos quando manifestamos nossas ideias.

Desde muito criança eu já tentava me inserir, ainda que de forma silenciosa em grupos de meninos e meninas, mas eu não era bem-vinda. Atenta aos detalhes, gostava (como gosto até hoje) de tocar tudo com as pontas dos dedos para poder sentir os objetos, não me bastava ver com os olhos, eu precisava sentir e assim era com as pessoas, os animais, os alimentos… Eu tocava, eu cheirava, eu apertava, girava e virava as coisas da maneira que eu conseguia para que fizesse sentido na minha cabeça e na minha alma. As crianças pareciam funcionar em um ritmo diferente do meu, eu não as culpava, mas voltava para casa e chorava muito, porque quando não riam de mim e me expulsavam, apenas me ignoravam, não me viam, não davam bola ou sentiam pena.

Então eu preferia sentar no chão da pequena casa bagunçada que eu morava e no pedaço de tapete cheio de fiapos eu abria o meu jornal favorito com a planta do imóvel que estava à venda e com grãos de feijão eu fazia a interação entre a família perfeita que eu idealizava, cada grãozinho era um integrante da família, eles comiam sentados à mesa, escovavam os dentes, assistiam tv, dormiam em seus quartos, acordavam de manhã, varriam a casa, iam ao playground do prédio. Depois eu sentava à mesa e fazia algo que eu gostava muito e que herdei de minhas idas à igreja japonesa Seicho-no-ie, eu contava cinco quilos de grãos de feijão, sistematicamente, grão por grão, sem deixar nenhum para trás e a cada grão eu dizia a palavra “obrigada” pensando em algo que eu tinha para agradecer – “obrigada papai”, “obrigada mamãe”, obrigada papai do céu”, obrigada por ter cabelos”, obrigada por ter olhos”, obrigada por ter pernas”, obrigada por dizer obrigada”, obrigada por ter feijões”, “obrigada por não cair hoje”, obrigada, obrigada, obrigada, muito obrigada…

Mentalmente, incansavelmente, cinco quilos de feijão, em cima de uma mesa, meus dedinhos pequeninos plantavam gratidão, lição muito bem ensinada por minha mãe. Deus me ouviu, de minha boca não saía uma palavra, mas eu observava minha mãe e meus olhos gigantes absorviam

tudo, absurdamente tudo o que se passava à minha volta.

Eu tinha medo, um medo justificado, as coisas não seriam fáceis e não foram, mas o fato de ter conseguido observar e absorver o habito da gratidão foi algo que me fez ter paciência e capacidade para colher coisas boas em minha vida e na vida das pessoas que tiveram paciência de ver vencer.

Na escola as coisas eram ainda mais difíceis. Aquela criança diferente, de cabelos negros, olhos e dentes gigantes, mas que não olhava muito para ninguém, tinha dificuldade para aprender. Nunca fui o tipo de asperger que tivesse facilidade com números ou astronomia ou qualquer coisa que beirasse o extraordinário… Eu tinha grave déficit de atenção, não me alimentava, era subnutrida, sentia muito sono, perdia o foco como um celular que acaba a bateria sem avisar. Eu até tentava prestar atenção, mas quando via, todos já estavam respondendo em coro a pergunta da professora e eu não entendia como podia aquelas crianças entenderem com tanta facilidade algo que não entrava na minha cabeça nem sob tortura. Meus cadernos voltavam vazios para casa, neles geralmente tinham os recados das professoras, e só! Meus pais sempre foram do tipo que acreditavam que teríamos que ser fortes e responsáveis e por isso não vistoriavam materiais e nem cadernos… Assim, fui passando e reprovando, aprendi a colar para “sobreviver”, era fácil, porque os professores não estavam nem aí, descobri a borracha gigante com capa, e ali eu colocava as respostas que precisava e parei de sofrer.

Quando comecei a colar nas provas entrei em depressão, me sentia uma pecadora, uma pessoa não merecedora do perdão de Deus, eu tinha onze anos, já falava, mas meus conflitos existenciais se afloraram e eu só pensava em desistir. Minha existência não tinha o menor sentido, o primeiro abuso físico aconteceu, compartilhei o acontecido com uma colega, que contou para a escola inteira que eu havia “provocado e excitado” o rapaz de vinte e dois anos, este que me atacou no corredor que dava acesso à minha casa, era um vizinho, ele me violentou, pegou nos meus seios e nos meus genitais, violou minha inocência e por pouco não me estuprou, eu estava desesperada, eu estava apavorada, sozinha, com medo, me sentindo suja, mas a menina, uma crente fiel à sua igreja, espalhou para a escola que eu estava de sem-vergonhice com o homem e rapidamente se disseminou o boato de que a menina estranha recebia dinheiro em troca de programas… Nesse dia eu tentei me matar. A sorte era que na época não existia internet, os boatos acabavam assim como começavam, a zoação logo se voltava contra outra pessoa, mas a dor na alma fazia um estrago que só quem já viveu e sobreviveu é capaz de relatar.

A cada acontecimento trágico desses eu me isolava, mas era puro medo e não falta de vontade. Na verdade, eu me sentia sozinha, queria colo, queria carinho, precisava ter alguém em quem confiar, mas não tinha. Infelizmente, sempre reparei que o primeiro impulso do ser humano é o de tirar sarro, sair de perto, ignorar ou torturar aquele que é diferente, depois, talvez, por alguma razão, alguém se aproxima, por afinidade, por que tem alguém na família que também tenha deficiência, por ter instinto em ajudar as pessoas ou por ser uma alma boa mesmo.

Na fase da adolescência, sozinha, perambulando pela rua, jogada à própria sorte e dependendo da ajuda de estranhos para sobreviver eu me aproximava de quem se aproximava, aceitava carinho e proteção, alimentos, teto, roupas quentes… Continuava sendo estranha, às vezes muito quieta, às vezes muito falante, sempre muito educada, mas sempre sem saber a hora de falar ou a hora de parar de falar, perguntava muito, queria saber detalhes, de tudo, de todos, especialmente se a pessoa tinha dado certo na vida, eu queria a fórmula do sucesso, queria vencer também, minha fé era inabalável, mas as pessoas não podiam se responsabilizar por mim e logo elas me “liberavam” porque sabiam que não poderiam criar vínculos. Geralmente eram mães de colegas da escola, vizinhas, pessoas que por pena me viam sozinha, com frio e fome, com calçados maiores que os pés e me acolhiam para me dar algum conforto e um prato de comida, eu adorava assistir desenhos na tv, então eu ganhava tudo isso e tinha muita gratidão, muita mesmo.

Sempre tive muita sorte, encontrei pessoas maravilhosas, verdadeiros anjos, alguns até acho que eram anjos mesmo, sabe aqueles que a gente fica na dúvida se existiram mesmo ou se eram apenas um sonho em momento de desespero? Pois é, teve disso também… Mas infelizmente, fazemos parte de um mundo que invariavelmente encontramos pessoas más, perambulando pelo mundo buscando uma presa fácil e eu era muito fácil, bastava que eu cruzasse com uma alma ruim e a tragédia estava anunciada. Foram algumas, não muitas, mas algumas que deixaram marcas, profundas e doloridas, que não gosto nem de lembrar… Em uma delas, um amigo me ofereceu abrigo, em uma noite fria, muito fria, eu vestia apenas uma camiseta e uma jaqueta jeans, aceitei sem hesitar, a família dele havia ido viajar, lá fora fazia dois graus, minha cabeça doía, eu estava roxa, meus pés formigavam dentro do al star e eu já estava uns quatro dias sem tomar banho. Eu morava em uma garagem, pagava cinquenta reais, lá tinha uma fresta de uns vinte centímetros, entre a alvenaria e o telhado, porque as telhas foram apenas largadas em cima dos moirões que lhes davam sustentação e o chuveiro elétrico saía apenas um fio de água, eu não tinha sabonete, nem xampu, nem comida, nem nada… Então, poder tomar um banho, comer um sanduíche, assistir um desenho, se cobrir com um cobertor e fechar os olhos sem medo era tudo o que eu precisava… Cheguei lá com ele e fui tomar banho, troquei toda a roupa, sequei meus cabelos, parecia um sonho, vesti um moletom dele, sentei no sofá, cobri os joelhos com um cobertor e quando pensei que iria ganhar algo para comer ele se aproximou ofegante, pedi que parasse, ele me pegou pelo pescoço, colocou a mão entre as minhas pernas, comecei a chorar, ele me soltou, me chamou de vagabunda, eu comecei a gritar e ele me pegou pelo pescoço novamente, apertou até quase eu perder o ar, depois me puxou, me jogou contra a parede com muita força. Me lembro de ouvir o barulho de minha cabeça batendo e de sentir algo quente escorrer pelo meu pescoço, pensei: “Morri!”… Acordei minutos depois, sem o moletom, na rua, sozinha, com as minhas coisas em uma sacola, morrendo de frio e tive que esperar até o dia seguinte para voltar para minha garagem, pois já passava da meia noite e não tinha mais trem, ele morava em Porto Alegre e eu em Canoas. Esperei até as cinco e pouco da manhã, não sei como sobrevivi àquela madrugada, creio que foi Deus e todos os anjos que me protegem. Desde aquele acontecimento eu passei a me isolar mais e mais…

Com o tempo fui aprendendo a ter equilíbrio, este tão almejado por todos os seres humanos, passei muita humilhação, muitas histórias lindas, outras bem trágicas, mas o importante é que, aos trinta e dois anos aprendi a me defender, a sair da minha “bolha” somente quando me sinto segura, ensino meu filho a fazer o mesmo, ensino-lhe sobre a diversidade, sobre a bondade e também sobre a maldade humana, sobre saber identificar o perigo, a se proteger, buscar abrigo e também a fugir antes da tragédia anunciada se fazer real.

Hoje em dia eu vivo de motivar pais, mães, profissionais e autistas a acreditarem que tudo é possível com adaptação, com conscientização e com o respeito ao tempo de cada um.

Graças a Deus, hoje em dia existem cada vez mais os trabalhos de conscientização, as normas de inclusão em escolas, no mercado de trabalho, nos projetos sociais, de cultura e lazer e até mesmo na política, que fazem com que tenhamos um pouco mais de acesso, respeito e inclusão. Mas o caminho ainda é longo, o preconceito, a falta de informação e a falta de vontade de muitas pessoas em nos conhecer é grande, isso prejudica muito, dói ver na mídia pessoas famosas, anônimos e até médicos falando da gente de forma pejorativa, como se a escolha fosse nossa em nos isolarmos e vivermos trancados em um quarto, jogando vídeo game. Essa não é a nossa realidade, nunca foi e nunca será.

Continua no próximo post…

KenyaDiehl®️

Autismo é vida – me ame como sou

#kenyaautismo