Minha vida autista (parte 6) – A fase do jardim de infância

Eu tinha quatro anos, era inverno, minha casa era pequena, bagunçada e o banheiro ficava do lado de fora. Duas peças compunham o ambiente humilde em que minha família vivia a muito custo. A cidade era São Paulo e o mundo parecia gigante demais para mim, eu não conseguia acreditar como eu poderia ter vindo parar aqui. Eu não falava, mas pensava muito, observava tudo e me questionava intimamente sobre os mistérios que envolvem a vida, o ser humano e a despedida de cada um de nós quando vamos embora daqui.

          Para mim tudo era estranho, ir ao banheiro, escovar os dentes, se alimentar, trocar as roupas, lutar pela sobrevivência. Meu ideal de vida – me lembro bem – era o de que todos deveriam viver uma vida simples, à luz de velas e comendo alimentos crus e sem temperos… Beijos na testa e ombros ou joelhos à mostra me soavam como pornografia, mostrar a testa era uma ofensa e quem mexia na minha franja sempre me via chorar e me esconder. O mundo era complicado demais para mim, eu chorava por tudo, quando escutava música, quando ia ao banheiro, quando tomava banho, quando ia dormir, quando ia comer… Chorava quando acordava, quando tentava me expressar e também quando eu não conseguia o que eu queria. Muitas vezes eu queria o impossível, outras vezes eu queria dois extremos ao mesmo tempo, coisa difícil mesmo de explicar, mas eu era assim, silêncio por fora e um turbilhão por dentro!

          Em meio à essa confusão emocional minha mãe decidiu que era hora de eu frequentar uma creche, me matriculou e o primeiro dia chegou. Ia ser bom, eu iria socializar, ela iria poder trabalhar e eu poderia ter outras distrações. Mas não foi assim que aconteceu. Logo de cara me deparei com professoras insensíveis e que me jogaram em meio a outras crianças sem o menor cuidado para que eu pudesse ser inserida e, honestamente, autista ou não, tenho a impressão de que qualquer criança teria dificuldade de interagir sem a ajuda de uma mediação. Logo de cara me apeguei a um brinquedo de madeira, era uma placa quebra-cabeças em formato de papagaio todo colorido, dava para tirar aquelas peças e colocar de novo. Aquele brinquedo me dava segurança e eu via nele uma espécie de ponto de equilíbrio. Certo dia, uma menina quis o brinquedo e eu não quis dar, a professora interviu e eu me recusei, a professora ordenou que eu entregasse e eu então joguei o brinquedo na menina. O barulho naquelas pecinhas de madeira caindo no chão não sai da minha cabeça até hoje, eu achei tanta graça que comecei a rir sem parar, acabei de castigo o restante do dia, ainda mais isolada do que eu já era, injustamente sendo julgada, pensaram que eu estava rindo por agredir a criança, mas jamais isso passaria pela minha cabeça, me senti triste, não consegui me explicar e chorei até minha mãe chegar.

          Minha dificuldade alimentar era grande, eu nauseava facilmente, as texturas dos alimentos me faziam vomitar, os cheiros, as cores, as bocas mastigando e engolindo perto de mim me faziam mal. Eu ouvia o som do alimento sendo engolido por mim e pelas outras pessoas também, por isso eu preferia me isolar para comer, preferia também comer sempre as mesmas coisas, pois elas me davam a segurança que eu precisava para não me desorganizar mentalmente, eu sabia o que esperar de cada alimento que eu escolhia para comer… E então, foi nessa sensibilidade que “me pegaram” de novo.

Era fim de tarde e o café das crianças estava sendo servido, de longe já senti o cheiro de café com leite misturado com o cheiro da caneca de plástico aquecida, junto serviram um pãozinho com manteiga e no pãozinho tinham sementinhas de erva doce, elas me faziam entrar em pânico, pelo cheiro, pela textura e pelo fato de serem sementes. Não aceitei o lanche e a monitora que estava cuidando daquela mesinha cheia de crianças se aproximou, pediu que eu me alimentasse, eu me recusei, empurrei para a frente. Ela perdeu a paciência e disse que eu precisava me alimentar, pegou a caneca de café com leite e aproximou de minha boca, disse que se eu não abrisse o café iria escorrer em mim, eu fiquei com os lábios cerrados, urrando, enquanto ela tentava – em vão – me fazer tomar o café. Ela cumpriu o que prometeu e despejou o café por cima de mim, certamente não estava tão quente quanto me parecia naquele momento, mas o que senti foi minha pele queimar, minhas roupas, meus cabelos, tudo banhado de café com leite com cheiro de plástico quente, aquilo parecia penetrar no meu sangue. Eu gritei, gritei, gritei e gritei mais, eu gritei até quase enlouquecer todo mundo, não deixei ninguém encostar em mim até minha mãe chegar. Desde aquele dia não fui mais para aquela escolinha, as funcionárias e as crianças não me queriam lá e eu também não queria estar lá, minha mãe pediu as contas do trabalho e ficou em casa comigo por mais algum tempo, até eu entrar no primeiro ano do ensino fundamental, quando as coisas naturalmente deveriam melhorar, ou não…

Continua no próximo capítulo…

Kenya Diehl