Minha vida autista (parte 7) Vida escolar – ensino fundamental

Quando minha mãe me retirou do jardim de infância algo me fez acreditar que eu ficaria com ela para sempre e que nunca mais voltaria para a escola. Porém, quando completei sete anos não houve mais como esperar, eu tinha que enfrentar o mundo e ir para a aula, todos os dias, dali por diante.

Fui matriculada como qualquer criança seria, já sabia ler e escrever, mas os desafios iam muito além da leitura e da escrita. O primeiro ano naquela época já era para começar a produzir e eu não estava preparada, não entendia o que era passado pela professora, não tinha coordenação motora para lidar com cola, tesouras, estojos com zíper, cadernos e tudo o mais. Eu estava vivendo um pesadelo.

A interação social era inexistente, eu não falava, eu não comia, eu não entendia nada do que se passava ao meu redor. A sala de aula era no piso superior e na hora do intervalo obrigatoriamente todos tinham que descer, aquilo era um verdadeiro horror, crianças correndo, gritando, banheiros lotados, cheiro de sopa, cheiro de plástico, cheiro de crianças com seus cabelos cheios de creme, barulho, sombra, sol, frio e calor, tudo junto e que acabava inevitavelmente em choro “sem explicação”.

Quando comecei a falar, por volta de nove anos de idade, pedi a minha mãe uma lancheira, eu achava muito lindo ver as meninas no recreio sentadinhas em círculos trocando seus lanches. Um dia sentei próximo a elas e elas se levantaram dizendo que eu era esquisita e que era melhor se afastar. Achei que tendo uma lancheira minha vida iria melhorar. Mas a resposta da minha mãe foi tão prática quanto ela sempre foi: “para que uma lancheira se você nem come nada?”… Ela também não sabia o que fazer comigo, não por mal ou por falta de vontade, é que eu era um caso raro para a época.

Em sala de aula eu não conseguia ficar parada, minhas pernas se mexiam involuntariamente e, para que eu pudesse ficar parada, eu tinha que ficar nas posições mais estranhas que uma pessoa possa imaginar, tipo com uma perna no encosto da cadeira e outra embaixo do corpo. Desta forma eu me sentia esticada e contida, mas logo levava uma bronca e tinha que sentar direito de novo. E assim eu ia, sem conseguir ouvir o que a professora falava, olhando pela janela e me sentindo em uma prisão. Como eu não conseguia me concentrar o tempo era infinitamente mais demorado para passar, eu sentia um sono incontrolável, uma sede desesperadora e minha cabeça parecia que ia explodir.

Então, eu arrumava estratégias, pedia para sair da sala toda hora e ficava caminhando pelos corredores da escola. Até que resolveram barrar esse comportamento e eu passei a fugir da sala de aula e me esconder pela escola. Eu ia para os fundos, onde não tinha nada e ia brincar com os matinhos e as pedrinhas que tinham no chão, aquele sol me aquecia, lá não tinha sombra, meu corpo ficava relaxado e minha imaginação ia longe.

Dizem que autista não tem muito o poder de abstração, isso não é verdade. Nosso pensamento é concreto, de fato, somos literais, diretos, porém tem um lado que poucas pessoas conhecem, que é nossa capacidade de nos imaginarmos estar em outro lugar, mais confortável, mais feliz, mais adequado para nossas necessidades, daí que acham que estamos “fora do ar”, “viajando” ou chame como quiser…

Certo dia, pedi para ir tomar água, a professora deixou e eu me distraí analisando os tijolos (tijolinhos à vista) das paredes da escola, eu procurava por padrões, identificava os que se pareciam diferentes e contava quantos tinham em cada coluna. E no meio dessa análise me deu dor de barriga e eu me fechei no banheiro. Quando voltei já estavam me procurando e eu então respondi que tinha ido fazer cocô, algo tão natural para mim, tão essencial para o ser humano, mas que virou piada, todos riram e eu passei a ser “a menina do cocô”.

Tudo era muito difícil para mim, eu não entendia as pessoas, não era como elas e não me adaptava às regras. Fui crescendo e tentando ser como os outros, ao desenvolver a linguagem verbal passei a falar descontroladamente, falava tudo que vinha em mente, com qualquer pessoa, sobre qualquer assunto e sem saber quando deveria parar, me tornei uma criança e pré-adolescente inconveniente, indesejada, frequentemente expulsa dos ambientes e que chorava muito.

Lá pelo quinto ano eu passei a fugir da escola, passava engatinhando pelo corredor da diretoria, onde tinha uma porta que ficava fechada em baixo e aberta em cima, assim não viam eu passar, esse corredor dava para o pátio e eu ia correndo até o cantinho onde eu conseguia escalar e depois pular para o lado de fora. O “carcereiro” como eu chamava, estava sempre de papo com alguém e não via quando eu passava.

Logo que eu sentia a liberdade da rua era maravilhoso, mas depois vinha uma sensação de vazio, uma vontade de morrer e eu chorava, vomitava, me batia, me mordia. Era um ciclo sem fim, uma situação que eu não desejo para ninguém.

Fui passando os anos com notas baixíssimas, aprendi a “colar” nas provas, mas nunca consegui fazer trabalhos em grupos. Isso me isolava ainda mais.

Quando cheguei no sétimo ano, minha mãe foi chamada na escola. Nos colocaram em uma sala junto com uma das professoras, a psicóloga da escola e a diretora. Ali, disseram para minha mãe me tirar da escola e me botar para trabalhar porque, segundo elas, eu não tinha mais nada para aprender, eu era um problema que ninguém queria assumir, era como uma bomba relógio prestes a explodir e senti uma dor tão grande que nem sei explicar. Ouvir dizerem que eu tinha atingido meu limite de aprendizagem foi o pior atestado de incompetência que eu poderia ter recebido, mas a vida da voltas e as coisas sempre tem uma solução. Minha fé em Deus foi algo que veio comigo de nascença, eu sabia que em algum momento Ele viria me buscar, só não sabia quando e nem como. Passei a planejar minha despedida desse mundo, entrei em depressão profunda, quase me matei, tive ameaça de internação várias vezes, sofri o que jamais gostaria que alguém sofresse, muito menos os autistas, tão sinceros, tão honestos, tão bons de coração.

Continua no próximo post…

KenyaDiehl®️

Autismo é vida – me ame como sou

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