A difículdade para o autista em se mudar de vida

Nos preparávamos para uma mudança a qualquer momento. Há tempos a cia em que meu marido trabalha já lhe dava sinais de que algo estava para mudar. Depois de muita especulação, a notícia então chegou! Seríamos transferidos de Canoas no Rio Grande do Sul para Santos em São Paulo. Porém, ainda sem data certa para a mudança definitiva.

Optamos por já nos mudarmos, montar apartamento, trocar de carro e matricular nosso filho na escola para que ele tivesse tempo de se acostumar com tantas alterações em sua rotina antes que se iniciasse o ano letivo. Decisão difícil, pois se esperássemos a transferência definitiva, meu marido teria que vir sozinho e nós dois ficaríamos em Canoas e poderíamos nos mudar somente no ano seguinte. Quando se tem um filho autista não basta simplesmente que façamos as mudanças conforme elas vão acontecendo, para cada detalhe é preciso um planejamento, um acolhimento específico, um roteiro a ser seguido. Impossível trocar de escola no meio do ano, isso seria o fim.

Qualquer mudança na vida das pessoas já é um desgaste e tanto, mesmo nas mudanças positivas existe o desconforto de sair da situação em que se está para se aventurar por lugares antes desconhecidos. Agora, imagina isso sendo com dois autistas, mãe e filho temporariamente sem o marido em uma cidade nova, apartamento novo, pessoas novas.

Fizemos o trajeto de mais de mil quilômetros por duas vezes, de Canoas a Santos, trazendo nossas coisas pessoais, colocamos tudo no lugar, montamos um novo lar. Inicialmente foi fácil, divertido e tivemos que fazer diversas vezes os possíveis caminhos para se chegar até meu prédio, pois a cada saída, eu me perdia mais. Foi legal, desafiador e estávamos em um clima de férias…

Porém, quando chegou a hora do meu marido voltar para o RS meu mundo desabou. Que dor ter que deixá-lo partir, mas preciso ser forte para que Gui consiga fazer dessa nova vida o seu novo hábito, sua rotina segura, sua nova forma de viver. Acontece que tudo mudou! Tudo é diferente! E então estou tendo que ensinar meu filho tudo de novo, como se fosse uma criança de três anos. Ligar e desligar o chuveiro passou a ser uma aventura, secar o corpo, vestir as roupas, escovar os dentes, cada detalhe que é preciso muita calma, paciência e fé. Tiramos meu filho do lar em que ele cresceu, lugar em que ele tirou as fraldas, apredeu a comer, a subir e descer escadas, pedalar, falar, ler e escrever. Estar em um ambiente novo e desconhecido gera ansiedade, medo e até regressão em coisas que ele já estava fera! Que dor ouvir ele chamar seu amiguinho Norton e não poder visitá-lo, que dor ouvir ele chorar por causa do Gatinho que ficou em Canoas, que dor ouvir ele dizer que sente a falta do pai e que queria que ele estivesse aqui. Mas que glória que ele pode se expressar e me contar isso tudo.

E quanto a mim? Eu estou bem, sou forte e segura. Tropeço, caio, me bato nas paredes, erro as portas, tudo aqui é tão diferente… Às vezes me pego olhando para o infinito, sem pensar em nada, às vezes choro feito criança, às vezes durmo profundamente e é difícil acordar. às vezes passo horas e mais horas sem comer absolutamente nada, sem conseguir dormir ou me concentrar em nada, mas na maior parte do tempo me sinto feliz. Minha vida nunca foi fácil, nem quero que seja. Minha meta é sempre viver, amar, lutar, vencer. Sei que tudo tem seu tempo, lugar e razão para acontecer. Então, sigo no desenvolvimento do meu filho, à espera do meu marido e com a certeza de que tudo isso só irá nos levar a patamares mais altos de compreensão, confiança e vontade de fazer deste mundo um lugar melhor para todos.

Um beijo muito carinhoso. Fiquem com Deus ❤️

KenyaDiehl®️

Autismo é vida – me ame como sou

AutismoMake

Faça com amor, faça como um autista!

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