A missão de educar

Hoje eu tive um dia difícil, consequência de uma gripe forte misturada com cólica menstrual e compromissos profissionais…

Meu filho Guilherme, autista como eu, hoje com dez anos e muito esperto, quer ser independente por um lado e totalmente dependente por outro.

No final da noite Guilherme queria ganhar um jogo. Aproveitei e combinei com ele que se ele tomasse banho do início ao fim sozinho ele ganharia. Ele já sabe fazer tudo mas tem uma resistência forte em se virar sem eu por perto, então tenho que ficar em pé, olhando e verbalizando o que é para fazer, senão não faz. Mas diante da proposta de ganhar o tal jogo no iPad ele até se animou, escolheu a própria camiseta e cueca, foi para o banheiro, tirou a roupa toda, abriu o vidro do box…

E…

De repente acho que se deu conta que eu não estava ali para servi-lo, começou a se fazer de desentendido, ligou o chuveiro no modo frio e ainda ficou me chamando, pedindo para eu revisar o boiler para ter certeza de que estava funcionando… (Lembrando que ele faz isso sozinho todos os dias sob minha supervisão e sabe exatamente o que faz). Insisti com ele qual era a maçaneta que ele tinha que abrir. Aí finalmente pegou a da água quente e ficou forçando para o lado contrário – fechar ao invés de abrir. E o pior de tudo?????? Com aquele sorrisinho de canto de boca!!!! Quase chorei, mas não desisti, ele sentiu o tamanho da encrenca e resolveu abrir a água quente…

Falei a ele que não teria mais o jogo, afinal, não estava cumprindo com o combinado e lhe lembrei de que era para seguir o plano de tomar banho e lavar a cabeça, que se ele não fizesse isso sozinho iria ter que dormir sozinho (desde que nos mudamos de casa tenho deitado com ele na cama até ele pegar no sono)…

Se arrependimento matasse… Ele não fez o que pedi, tive que ir lá e mandar ele lavar a cabeça e terminar o banho… Ele bufou e eu saí só pensando como eu iria fazer para que ele se deitasse e pegasse no sono sozinho, afinal, se eu falei eu tenho que cumprir.

Resultado?????? Ficou embaixo dagua por cerca de uma hora. Apelei para a modernidade, fiz um FaceTime com o pai dele, que ao invés de dar uma bronca resolveu matar a saudade rsrsrsrs. Quase infartei, ainda por cima eu morrendo de cólica e enjoo, com vontade de sumir do mapa, cansada, exausta…

Pensei comigo: Ele não quer independência. Ele me quer ali servindo ele, na segurança de que não sairei de perto dele. Só que ele precisa desse desvinculo e eu preciso da minha sanidade mental. Não quero ser a esposa deprimida que só chora, quero minha vida de volta e ele vai ter que aprender… Deitei na minha cama pedindo Inspiração a Deus…

Bom. Depois de um tempo ele saiu do banho, se secou, se vestiu, se penteou, botou desodorante e perfume, escovou os dentes e apareceu no meu quarto com carinha de culpado dizendo que fez tudo sozinho… Eu comecei a chorar e perguntei porque ele precisava fazer tanta confusão antes de fazer a coisa certa e ele veio se deitar na minha cama. Então eu lhe disse que não era para ele deitar aqui, mas sim no quarto dele. Ele foi, apagou tudo, ligou os ventiladores e eu fui para o banho, tive uma crise, silenciosa porém intensa. Saí do banho e fui tomar remédio para dor da cólica, da enxaqueca e do enjôo. Na volta da cozinha passei no quarto dele e ele estava sentadinho na cama, olhando para o infinito… Que dor!

Sentei e conversei com ele muito emocionada e chorando bastante. Disse a ele que o fato de ele adquirir independência não iria afastá-lo de mim. Lembrei ele de quando ele achava que não precisava ler e a diferença que fez na vida dele ter aprendido a ler, o quanto ele é mais livre, mais feliz e mais capaz de escolher o que quer. E aí lhe garanti que eu não estar ali, lavando e secando ele não irá me tirar dele, pelo contrário, dessa forma terei ainda mais tempo para amá-lo e me divertir com ele.

Guilherme me abraçou e disse que estava ali para me cuidar. E eu pedi a ele que deitasse para dormir, mas que antes teríamos que orar. Ele então me disse: “Já orei mamãe. Eu fiz mesmo tudo sozinho…”

Elogiei, dei um abraço apertado e vim para o meu quarto. Acho que desidratei de tanto chorar. As pessoas não sabem a dor que é educar de verdade e a energia e o tempo que isso demanda…

Agora ele segue dormindo tranquilo e eu estou aqui, com o coração apertado, sem conseguir dormir, mas com a sensação de missão cumprida e com a certeza de que estou criando um homem forte e responsável, independentemente de autismo, pois antes de ser autista, ele é um ser humano e isso é que faz toda a diferença. Não o trato como coitadinho, mas sim com muito amor, carinho e uma dose extra de pulso firme.

Não desista! Autismo é vida!

KenyaDiehl®️

Autismo é vida – me ame como sou

AutismoMake

Faça com amor, faça como um autista!

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