Minha vida autista (parte 7) Vida escolar – ensino fundamental

Quando minha mãe me retirou do jardim de infância algo me fez acreditar que eu ficaria com ela para sempre e que nunca mais voltaria para a escola. Porém, quando completei sete anos não houve mais como esperar, eu tinha que enfrentar o mundo e ir para a aula, todos os dias, dali por diante.

Fui matriculada como qualquer criança seria, já sabia ler e escrever, mas os desafios iam muito além da leitura e da escrita. O primeiro ano naquela época já era para começar a produzir e eu não estava preparada, não entendia o que era passado pela professora, não tinha coordenação motora para lidar com cola, tesouras, estojos com zíper, cadernos e tudo o mais. Eu estava vivendo um pesadelo.

A interação social era inexistente, eu não falava, eu não comia, eu não entendia nada do que se passava ao meu redor. A sala de aula era no piso superior e na hora do intervalo obrigatoriamente todos tinham que descer, aquilo era um verdadeiro horror, crianças correndo, gritando, banheiros lotados, cheiro de sopa, cheiro de plástico, cheiro de crianças com seus cabelos cheios de creme, barulho, sombra, sol, frio e calor, tudo junto e que acabava inevitavelmente em choro “sem explicação”.

Quando comecei a falar, por volta de nove anos de idade, pedi a minha mãe uma lancheira, eu achava muito lindo ver as meninas no recreio sentadinhas em círculos trocando seus lanches. Um dia sentei próximo a elas e elas se levantaram dizendo que eu era esquisita e que era melhor se afastar. Achei que tendo uma lancheira minha vida iria melhorar. Mas a resposta da minha mãe foi tão prática quanto ela sempre foi: “para que uma lancheira se você nem come nada?”… Ela também não sabia o que fazer comigo, não por mal ou por falta de vontade, é que eu era um caso raro para a época.

Em sala de aula eu não conseguia ficar parada, minhas pernas se mexiam involuntariamente e, para que eu pudesse ficar parada, eu tinha que ficar nas posições mais estranhas que uma pessoa possa imaginar, tipo com uma perna no encosto da cadeira e outra embaixo do corpo. Desta forma eu me sentia esticada e contida, mas logo levava uma bronca e tinha que sentar direito de novo. E assim eu ia, sem conseguir ouvir o que a professora falava, olhando pela janela e me sentindo em uma prisão. Como eu não conseguia me concentrar o tempo era infinitamente mais demorado para passar, eu sentia um sono incontrolável, uma sede desesperadora e minha cabeça parecia que ia explodir.

Então, eu arrumava estratégias, pedia para sair da sala toda hora e ficava caminhando pelos corredores da escola. Até que resolveram barrar esse comportamento e eu passei a fugir da sala de aula e me esconder pela escola. Eu ia para os fundos, onde não tinha nada e ia brincar com os matinhos e as pedrinhas que tinham no chão, aquele sol me aquecia, lá não tinha sombra, meu corpo ficava relaxado e minha imaginação ia longe.

Dizem que autista não tem muito o poder de abstração, isso não é verdade. Nosso pensamento é concreto, de fato, somos literais, diretos, porém tem um lado que poucas pessoas conhecem, que é nossa capacidade de nos imaginarmos estar em outro lugar, mais confortável, mais feliz, mais adequado para nossas necessidades, daí que acham que estamos “fora do ar”, “viajando” ou chame como quiser…

Certo dia, pedi para ir tomar água, a professora deixou e eu me distraí analisando os tijolos (tijolinhos à vista) das paredes da escola, eu procurava por padrões, identificava os que se pareciam diferentes e contava quantos tinham em cada coluna. E no meio dessa análise me deu dor de barriga e eu me fechei no banheiro. Quando voltei já estavam me procurando e eu então respondi que tinha ido fazer cocô, algo tão natural para mim, tão essencial para o ser humano, mas que virou piada, todos riram e eu passei a ser “a menina do cocô”.

Tudo era muito difícil para mim, eu não entendia as pessoas, não era como elas e não me adaptava às regras. Fui crescendo e tentando ser como os outros, ao desenvolver a linguagem verbal passei a falar descontroladamente, falava tudo que vinha em mente, com qualquer pessoa, sobre qualquer assunto e sem saber quando deveria parar, me tornei uma criança e pré-adolescente inconveniente, indesejada, frequentemente expulsa dos ambientes e que chorava muito.

Lá pelo quinto ano eu passei a fugir da escola, passava engatinhando pelo corredor da diretoria, onde tinha uma porta que ficava fechada em baixo e aberta em cima, assim não viam eu passar, esse corredor dava para o pátio e eu ia correndo até o cantinho onde eu conseguia escalar e depois pular para o lado de fora. O “carcereiro” como eu chamava, estava sempre de papo com alguém e não via quando eu passava.

Logo que eu sentia a liberdade da rua era maravilhoso, mas depois vinha uma sensação de vazio, uma vontade de morrer e eu chorava, vomitava, me batia, me mordia. Era um ciclo sem fim, uma situação que eu não desejo para ninguém.

Fui passando os anos com notas baixíssimas, aprendi a “colar” nas provas, mas nunca consegui fazer trabalhos em grupos. Isso me isolava ainda mais.

Quando cheguei no sétimo ano, minha mãe foi chamada na escola. Nos colocaram em uma sala junto com uma das professoras, a psicóloga da escola e a diretora. Ali, disseram para minha mãe me tirar da escola e me botar para trabalhar porque, segundo elas, eu não tinha mais nada para aprender, eu era um problema que ninguém queria assumir, era como uma bomba relógio prestes a explodir e senti uma dor tão grande que nem sei explicar. Ouvir dizerem que eu tinha atingido meu limite de aprendizagem foi o pior atestado de incompetência que eu poderia ter recebido, mas a vida da voltas e as coisas sempre tem uma solução. Minha fé em Deus foi algo que veio comigo de nascença, eu sabia que em algum momento Ele viria me buscar, só não sabia quando e nem como. Passei a planejar minha despedida desse mundo, entrei em depressão profunda, quase me matei, tive ameaça de internação várias vezes, sofri o que jamais gostaria que alguém sofresse, muito menos os autistas, tão sinceros, tão honestos, tão bons de coração.

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KenyaDiehl®️

Autismo é vida – me ame como sou

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Minha vida autista (parte 5) – Dificuldade de socialização

Via de regra, o ser humano nasce com o desejo de viver em sociedade. Interagir com seu semelhante faz parte do desenvolvimento físico, emocional e intelectual das pessoas. A troca, a imitação, a repulsa, o exemplo, a decepção, a conquista e todo o conjunto de interação social fazem parte de um contexto em que se desenvolve a personalidade, as preferências, a moralidade ou ausência dela, a capacidade de esperar, de ceder, de lutar e de vencer.

O isolamento ao qual os autistas preferem viver gera medo, desgosto e ansiedade em pais e mães que idealizaram um filho que nasceu perfeito e que geralmente apresentou os sintomas do autismo ainda na primeira infância. E esse medo tem fundamento, é legítimo e totalmente compreensível, porém, é preciso reagir, buscar forças, ter fé e, sobretudo, buscar conhecimento e recursos para ajudar o filho, agora autista, a superar seus maiores bloqueios e conseguir ao menos dividir-se entre seu perfeito universo autista e a sociedade como um todo.

O que é importante ressaltar aqui é que, na verdade não existe o desejo por parte da pessoa com autismo em se isolar, o que existe é a necessidade de ficar sozinho perante a incompreensão das pessoas com as nossas dificuldades, o desinteresse pelos nossos pensamentos, a cobrança pelo que querem que sejamos e o tanto de recusa que sentimos quando manifestamos nossas ideias.

Desde muito criança eu já tentava me inserir, ainda que de forma silenciosa em grupos de meninos e meninas, mas eu não era bem-vinda. Atenta aos detalhes, gostava (como gosto até hoje) de tocar tudo com as pontas dos dedos para poder sentir os objetos, não me bastava ver com os olhos, eu precisava sentir e assim era com as pessoas, os animais, os alimentos… Eu tocava, eu cheirava, eu apertava, girava e virava as coisas da maneira que eu conseguia para que fizesse sentido na minha cabeça e na minha alma. As crianças pareciam funcionar em um ritmo diferente do meu, eu não as culpava, mas voltava para casa e chorava muito, porque quando não riam de mim e me expulsavam, apenas me ignoravam, não me viam, não davam bola ou sentiam pena.

Então eu preferia sentar no chão da pequena casa bagunçada que eu morava e no pedaço de tapete cheio de fiapos eu abria o meu jornal favorito com a planta do imóvel que estava à venda e com grãos de feijão eu fazia a interação entre a família perfeita que eu idealizava, cada grãozinho era um integrante da família, eles comiam sentados à mesa, escovavam os dentes, assistiam tv, dormiam em seus quartos, acordavam de manhã, varriam a casa, iam ao playground do prédio. Depois eu sentava à mesa e fazia algo que eu gostava muito e que herdei de minhas idas à igreja japonesa Seicho-no-ie, eu contava cinco quilos de grãos de feijão, sistematicamente, grão por grão, sem deixar nenhum para trás e a cada grão eu dizia a palavra “obrigada” pensando em algo que eu tinha para agradecer – “obrigada papai”, “obrigada mamãe”, obrigada papai do céu”, obrigada por ter cabelos”, obrigada por ter olhos”, obrigada por ter pernas”, obrigada por dizer obrigada”, obrigada por ter feijões”, “obrigada por não cair hoje”, obrigada, obrigada, obrigada, muito obrigada…

Mentalmente, incansavelmente, cinco quilos de feijão, em cima de uma mesa, meus dedinhos pequeninos plantavam gratidão, lição muito bem ensinada por minha mãe. Deus me ouviu, de minha boca não saía uma palavra, mas eu observava minha mãe e meus olhos gigantes absorviam

tudo, absurdamente tudo o que se passava à minha volta.

Eu tinha medo, um medo justificado, as coisas não seriam fáceis e não foram, mas o fato de ter conseguido observar e absorver o habito da gratidão foi algo que me fez ter paciência e capacidade para colher coisas boas em minha vida e na vida das pessoas que tiveram paciência de ver vencer.

Na escola as coisas eram ainda mais difíceis. Aquela criança diferente, de cabelos negros, olhos e dentes gigantes, mas que não olhava muito para ninguém, tinha dificuldade para aprender. Nunca fui o tipo de asperger que tivesse facilidade com números ou astronomia ou qualquer coisa que beirasse o extraordinário… Eu tinha grave déficit de atenção, não me alimentava, era subnutrida, sentia muito sono, perdia o foco como um celular que acaba a bateria sem avisar. Eu até tentava prestar atenção, mas quando via, todos já estavam respondendo em coro a pergunta da professora e eu não entendia como podia aquelas crianças entenderem com tanta facilidade algo que não entrava na minha cabeça nem sob tortura. Meus cadernos voltavam vazios para casa, neles geralmente tinham os recados das professoras, e só! Meus pais sempre foram do tipo que acreditavam que teríamos que ser fortes e responsáveis e por isso não vistoriavam materiais e nem cadernos… Assim, fui passando e reprovando, aprendi a colar para “sobreviver”, era fácil, porque os professores não estavam nem aí, descobri a borracha gigante com capa, e ali eu colocava as respostas que precisava e parei de sofrer.

Quando comecei a colar nas provas entrei em depressão, me sentia uma pecadora, uma pessoa não merecedora do perdão de Deus, eu tinha onze anos, já falava, mas meus conflitos existenciais se afloraram e eu só pensava em desistir. Minha existência não tinha o menor sentido, o primeiro abuso físico aconteceu, compartilhei o acontecido com uma colega, que contou para a escola inteira que eu havia “provocado e excitado” o rapaz de vinte e dois anos, este que me atacou no corredor que dava acesso à minha casa, era um vizinho, ele me violentou, pegou nos meus seios e nos meus genitais, violou minha inocência e por pouco não me estuprou, eu estava desesperada, eu estava apavorada, sozinha, com medo, me sentindo suja, mas a menina, uma crente fiel à sua igreja, espalhou para a escola que eu estava de sem-vergonhice com o homem e rapidamente se disseminou o boato de que a menina estranha recebia dinheiro em troca de programas… Nesse dia eu tentei me matar. A sorte era que na época não existia internet, os boatos acabavam assim como começavam, a zoação logo se voltava contra outra pessoa, mas a dor na alma fazia um estrago que só quem já viveu e sobreviveu é capaz de relatar.

A cada acontecimento trágico desses eu me isolava, mas era puro medo e não falta de vontade. Na verdade, eu me sentia sozinha, queria colo, queria carinho, precisava ter alguém em quem confiar, mas não tinha. Infelizmente, sempre reparei que o primeiro impulso do ser humano é o de tirar sarro, sair de perto, ignorar ou torturar aquele que é diferente, depois, talvez, por alguma razão, alguém se aproxima, por afinidade, por que tem alguém na família que também tenha deficiência, por ter instinto em ajudar as pessoas ou por ser uma alma boa mesmo.

Na fase da adolescência, sozinha, perambulando pela rua, jogada à própria sorte e dependendo da ajuda de estranhos para sobreviver eu me aproximava de quem se aproximava, aceitava carinho e proteção, alimentos, teto, roupas quentes… Continuava sendo estranha, às vezes muito quieta, às vezes muito falante, sempre muito educada, mas sempre sem saber a hora de falar ou a hora de parar de falar, perguntava muito, queria saber detalhes, de tudo, de todos, especialmente se a pessoa tinha dado certo na vida, eu queria a fórmula do sucesso, queria vencer também, minha fé era inabalável, mas as pessoas não podiam se responsabilizar por mim e logo elas me “liberavam” porque sabiam que não poderiam criar vínculos. Geralmente eram mães de colegas da escola, vizinhas, pessoas que por pena me viam sozinha, com frio e fome, com calçados maiores que os pés e me acolhiam para me dar algum conforto e um prato de comida, eu adorava assistir desenhos na tv, então eu ganhava tudo isso e tinha muita gratidão, muita mesmo.

Sempre tive muita sorte, encontrei pessoas maravilhosas, verdadeiros anjos, alguns até acho que eram anjos mesmo, sabe aqueles que a gente fica na dúvida se existiram mesmo ou se eram apenas um sonho em momento de desespero? Pois é, teve disso também… Mas infelizmente, fazemos parte de um mundo que invariavelmente encontramos pessoas más, perambulando pelo mundo buscando uma presa fácil e eu era muito fácil, bastava que eu cruzasse com uma alma ruim e a tragédia estava anunciada. Foram algumas, não muitas, mas algumas que deixaram marcas, profundas e doloridas, que não gosto nem de lembrar… Em uma delas, um amigo me ofereceu abrigo, em uma noite fria, muito fria, eu vestia apenas uma camiseta e uma jaqueta jeans, aceitei sem hesitar, a família dele havia ido viajar, lá fora fazia dois graus, minha cabeça doía, eu estava roxa, meus pés formigavam dentro do al star e eu já estava uns quatro dias sem tomar banho. Eu morava em uma garagem, pagava cinquenta reais, lá tinha uma fresta de uns vinte centímetros, entre a alvenaria e o telhado, porque as telhas foram apenas largadas em cima dos moirões que lhes davam sustentação e o chuveiro elétrico saía apenas um fio de água, eu não tinha sabonete, nem xampu, nem comida, nem nada… Então, poder tomar um banho, comer um sanduíche, assistir um desenho, se cobrir com um cobertor e fechar os olhos sem medo era tudo o que eu precisava… Cheguei lá com ele e fui tomar banho, troquei toda a roupa, sequei meus cabelos, parecia um sonho, vesti um moletom dele, sentei no sofá, cobri os joelhos com um cobertor e quando pensei que iria ganhar algo para comer ele se aproximou ofegante, pedi que parasse, ele me pegou pelo pescoço, colocou a mão entre as minhas pernas, comecei a chorar, ele me soltou, me chamou de vagabunda, eu comecei a gritar e ele me pegou pelo pescoço novamente, apertou até quase eu perder o ar, depois me puxou, me jogou contra a parede com muita força. Me lembro de ouvir o barulho de minha cabeça batendo e de sentir algo quente escorrer pelo meu pescoço, pensei: “Morri!”… Acordei minutos depois, sem o moletom, na rua, sozinha, com as minhas coisas em uma sacola, morrendo de frio e tive que esperar até o dia seguinte para voltar para minha garagem, pois já passava da meia noite e não tinha mais trem, ele morava em Porto Alegre e eu em Canoas. Esperei até as cinco e pouco da manhã, não sei como sobrevivi àquela madrugada, creio que foi Deus e todos os anjos que me protegem. Desde aquele acontecimento eu passei a me isolar mais e mais…

Com o tempo fui aprendendo a ter equilíbrio, este tão almejado por todos os seres humanos, passei muita humilhação, muitas histórias lindas, outras bem trágicas, mas o importante é que, aos trinta e dois anos aprendi a me defender, a sair da minha “bolha” somente quando me sinto segura, ensino meu filho a fazer o mesmo, ensino-lhe sobre a diversidade, sobre a bondade e também sobre a maldade humana, sobre saber identificar o perigo, a se proteger, buscar abrigo e também a fugir antes da tragédia anunciada se fazer real.

Hoje em dia eu vivo de motivar pais, mães, profissionais e autistas a acreditarem que tudo é possível com adaptação, com conscientização e com o respeito ao tempo de cada um.

Graças a Deus, hoje em dia existem cada vez mais os trabalhos de conscientização, as normas de inclusão em escolas, no mercado de trabalho, nos projetos sociais, de cultura e lazer e até mesmo na política, que fazem com que tenhamos um pouco mais de acesso, respeito e inclusão. Mas o caminho ainda é longo, o preconceito, a falta de informação e a falta de vontade de muitas pessoas em nos conhecer é grande, isso prejudica muito, dói ver na mídia pessoas famosas, anônimos e até médicos falando da gente de forma pejorativa, como se a escolha fosse nossa em nos isolarmos e vivermos trancados em um quarto, jogando vídeo game. Essa não é a nossa realidade, nunca foi e nunca será.

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Autismo é vida – me ame como sou

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Minha vida autista (parte 4) – O desenvolvimento da fala

Segundo minha mãe, falei bem cedo, por volta de um ano. Um vocabulário com poucas palavras, mas todas ditas com perfeição, geralmente frases prontas e inteligentes. Com cerca de três anos resolvi não falar mais, a sensação ao tentar falar era de cansaço, de falta de ar e de “preguiça” de me fazer entender. Passei a apontar para as coisas, junto com a “mania” de enrolar incansavelmente fios de linha ou de cabelos pelos dedos.

          Não caiam no engano de acreditar que seus filhos não os escutam e não os entendem somente por não utilizarem a linguagem verbal. Talvez ordens mais complexas sejam difíceis de serem assimiladas, porém, a compreensão ainda que deficiente se faz presente e a lembrança tende a não ser apagada pelo resto da vida. Acontecimentos aparentemente insignificantes para um neurotipico podem ter um peso potencialmente forte na cabeça de um autista.

          Eu escutava tudo, falava somente em casos extremos, se escutava música chorava, pois sentia cada emoção passada pela canção, fosse qual fosse. E, de certa forma, não falar me trazia uma série de vantagens, como por exemplo não ser xingada pelas coisas que eu pensava e também por não ser forçada a não fazer o que eu não queria, como comer alimentos que me faziam vomitar ou interagir com crianças da minha idade. Então, meu silêncio me protegia em meu próprio mundo.

          Aos nove anos, como relatei no capítulo anterior, recebi o primeiro diagnóstico de autismo e, por pressão e medo de uma internação passei a falar. Não parei mais, falar se tornou algo incontrolável, cansativo e sem filtro algum, fui expulsa de rodinhas de amigos, excluída de trabalhos escolares e motivo de piada para muita gente. Eu não conseguia perceber até que ponto eu poderia falar o que eu sentia e pensava e também não selecionava com quem falava, na verdade eu respondia a quem me chamava e puxava assunto com qualquer um que aparecesse pelo caminho. Meus pais trabalhavam fora e acabei ficando vulnerável e caindo em mãos de pessoas maldosas, sofri graves consequências da minha falta de noção e passei o fim da infância, adolescência e parte da minha juventude reconhecida como a louca inconsequente que fazia tudo o que os outros mandavam e falava tudo o que perguntassem.

          Apenas com trinta e dois anos, já casa e mãe, passei uma das maiores humilhações de minha vida e finalmente aprendi que precisava me proteger, mudar de vida, conquistar meu espaço no mundo e escolher com quem me envolver, para que o mundo parasse de me engolir. A posição de vítima nunca me caiu bem, muito embora durante a minha vida eu tenha sido alvo de pancadas, piadas, abusos de todas as espécies… Sempre acreditei que era melhor ter fé em coisas boas do que acreditar que a humanidade era ruim. Me apeguei ao fato de que, se por um lado eu tinha dificuldade de aprender, por outro lado eu tinha uma facilidade imensa de copiar. Passei a analisar pessoas bem-sucedidas, que venceram seus maiores dramas e buscava saber como aquelas pessoas haviam conseguido sair de uma situação de caos para uma situação de paz… Isso me ajudou muito a não desistir, muito embora eu tenha sentido essa vontade muitas vezes.

          Falar, por fim, se tornou um hiperfoco, quando passei a não querer mais fazer parte de círculos de amizades e de vida de pessoas que não me aceitavam eu consegui me conhecer melhor, desenvolver minha ideias da melhor maneira possível e transmitir meus pensamentos e sentimentos pela internet através das redes sociais. Assim me tornei palestrante e hoje utilizo minhas palavras de forma que eu consigo ajudar autistas e familiares a entenderem melhor os sentimentos e os mistérios que envolvem o universo autista.

          Difícil hoje em dia ainda é saber a hora de parar de falar, assim como conter a ansiedade para falar quando as ideias vêm à mente. Manter um diálogo coerente é complicadíssimo. Prefiro milhões de vezes manter uma conversa por aplicativo de mensagens do que pessoalmente, porque na segunda opção eu certamente vou parecer uma louca falando. Nas palestras eu uso apps que me lembram de mudar de conteúdo para não me empolgar e seguir trocando de assunto. Nos vídeos, não raro preciso gravar várias vezes até conseguir um que se aproveite. É complicado, cansativo. Eu canto muito para gastar minha quota de palavras diárias e se eu não gastar eu choro, choro muito, muito mesmo. Daí meu fascínio pela escrita, é nas palavras que descarrego minhas emoções, meus sentimentos e meus pensamentos sobre as coisas da vida.

          Acredito que todo o meu período de isolamento se converteu em expansão, porém eu também preciso igualmente me isolar para me reorganizar, ficar sozinha faz parte do meu equilíbrio não é por mal, é saudável e é essencial para que as coisas andem bem para todos. Esse agito e essa velocidade de pensamentos precisa de pausa, um freio e isso precisa ser respeitado para que as coisas se ajeitem.

Falar não é apenas proferir palavras. É um processo complexo que envolve deglutição de ar, articulação de língua com dentes, conexão de pensamento com emoção, com som… É toda uma construção que parece natural para pessoas que não tem autismo, mas para quem tem autismo é complicado porque sentimos tudo de forma separada, por partes e com intensidades diferentes. Tenha paciência, junte as peças do quebra-cabeças do autismo e veja onde está a dificuldade, diminua os demais estímulos para que o essencial seja conectado. Acredite! É possível, e se a fala não vier, existem outras lindas formas de comunicação tão eficientes quanto a comunicação verbal, o tempo irá te dizer qual a melhor forma e caminho você deverá seguir.

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Kenya Diehl

Autista, Consultora em Autismo, Escritora

Palestrante e Colunista na revista Ser Autista

Minha vida autista (parte 3) – Os sintomas

Falar em sintomas de autismo é, ao mesmo tempo, algo simples e complicado. Muitas pessoas chegam a mim se dizendo tímidas, com dificuldade de olhar nos olhos, necessidade de rotinas ou outros sintomas compatíveis com o autismo e me questionam se existe a possibilidade de elas serem também autistas. Mas o autismo, apesar de estar cada dia mais sendo desmistificado, é um universo ainda cheio de mistérios, de limitações e dificuldades que nos colocam em situação de isolamento, solidão e depressão. É, portanto, um transtorno de difícil diagnóstico, sobretudo em adultos.

          No meu caso, os sintomas apareceram quando eu ainda era um bebê, mas obviamente foi ser percebido anos depois, quando a escola começou a estranhar meu comportamento. Eu tinha cerca de cinco ou seis anos quando pela primeira vez minha mãe foi chamada na escola e orientada para que me levasse ao médico, pois havia “algo errado” comigo, “talvez autismo mamãe” – disse a orientadora que conversava com minha mãe. Em uma época em que autismo era sinônimo de demência e completa incapacidade como um todo, conhecido popularmente como uma “doença mental”. Minha mãe dizia que eu era uma menina boazinha demais e que eu não era doente. Eu apenas não me relacionava com ninguém, não comia quase nada, não dormia direito, urinava na cama, não falava, não brincava e chorava muito. Depois de muita reflexão minha mãe se lembrou que eu era um bebê que não chorava, que não me apegava a nada, não me mexia no berço e poderia me deixar uma manhã inteira deitada no balcão da cozinha porque eu simplesmente não me virava, era um bebê quase que de brinquedo…

          Quando comecei a andar, descobri um mundo novo, me distraía facilmente com objetos e não dava a mínima para as pessoas. Tinha um sério problema em dividir alimentos ou compartilhar objetos e me atinha a uma mania por época. Teve a época de brincar de contar grãos de feijão, a época de enrolar fios de todos os tipos, a época de enfileirar bonecas e por aí vai. Eu sabia falar, mas me recusava a falar e na maior parte do tempo eu simplesmente não conseguia falar. O desenvolvimento pleno da fala veio aos nove anos, coincidentemente após o diagnóstico, quando minha mãe me levou a um neuropediatra porque era a quarta vez que chamavam ela na escola falando sobre o autismo e aquela época eu cheguei a um estágio de enxaqueca em que eu não conseguia mais sair da cama. As faltas escolares eram frequentes, eu não tinha hábitos de higiene como tomar banho, escovar os dentes ou lavar os cabelos e cortar as unhas. Eu não gostava de cabelos bagunçados, não suportava roupa suja (com manchas), mas para mim se estivesse cinco dias com a mesma roupa e ela não estivesse manchada, então estava bom…

          Ao sair da consulta recebi uma bronca de minha mãe, depois de vomitar em um dos ônibus que tomamos para voltar para casa. Ela foi bem direta, disse que eu não era doente, que eu sabia falar e que precisaria me esforçar porque senão a escola não iria mais me aceitar e, como não tinha ninguém para me cuidar, eu teria que ser internada. Aquilo me gerou pânico, entrei em desespero e passei a falar. Não considero errada a atitude de minha mãe, pois ela tinha outros dois filhos para sustentar e realmente não poderia largar tudo outra vez para cuidar de mim. Ela já havia deixado o trabalho em uma tentativa frustrada de me deixar em uma creche, em que eu só gritava e não me aguentaram lá.

          A exposição à pobreza, à dor, angústia e solidão me obrigaram a me adaptar – ou pelo menos tentar – ser um pouco mais “normal”. Mas sempre fui um “peixe fora d’água”, um “ponto fora da curva”, uma criança que, de especial não tinha nada. Conhecia sim a exclusão, o bullying, a carência afetiva, os medos, os enjoos, as crises, a dificuldade de compreender as regras, os contextos e os estranhos comportamentos das pessoas. Elas falavam sobre eu não tomar banho, claro que eu queria tomar mais banho, porém, o medo do banheiro me impedia de frequentá-lo com continuidade, mas essas mesmas pessoas tomavam banho e se enchiam – conscientemente – de desodorantes que ardiam o nariz e deixavam gosto amargo na garganta. Difícil demais entender as regras sociais, a prioridade que as pessoas davam para outras pessoas que as traiam e falavam mal delas. Os meus objetos me eram muito previsíveis, eu sempre sabia como eles funcionavam e o que poderia esperar deles. As pessoas eram instáveis, ora amavam e pegavam no colo, ora expulsavam e berravam sem motivo. Definitivamente eu preferia ficar com os objetos ao invés de ficar com as pessoas.

          Apesar de melhorar a minha capacidade de me relacionar com as pessoas, isso nunca representou de forma alguma que eu tivesse, de fato, um bom relacionamento com quem quer que fosse. Minhas manias só mudavam de nome, mas eu continuei diferente, inaceitável pelo mundo e isolada em meu próprio casulo.

          Sofri humilhações das mais diversas, apanhei, tive minhas coisas roubadas, sofri abuso físico e emocional, perdi minha infância antes do tempo, cheguei a morar na rua, perdi a fé nas pessoas, mas nunca perdi minha fé em Deus.

          Atualmente tenho ainda minhas manias, minhas limitações, uma forte sensibilidade sensorial e muita dificuldade na comunicação. Pois é, sou escritora, palestrante e tenho dificuldade na comunicação, isso porque eu falo demais, não consigo ter os filtros necessários para manter as pessoas perto de mim, lhes digo o que penso, de forma carinhosa, mas digo, isso infelizmente não é bem visto pela sociedade como um todo. Muito embora a lei seja clara, tanto na lei dos homens, como nas leis de Deus, de que não se deve mentir, as pessoas preferem mentiras do que ouvir verdades que não lhes caem bem. Estão acostumadas a disfarçar sentimentos, descontam em bebidas, em vícios e outras coisas destrutivas todos aqueles sentimentos que foram impelidas a guardarem dentro de si. E me refiro tanto a sentimentos bons como a sentimentos ruins, porque tive também experiências ruins quando demonstrei sentimentos bons, por exemplo, ao gostar demais de uma pessoa e enchê-la de presentes, agrados e elogios e acabar sendo questionada sobre minhas intenções, fui julgada de estar querendo obter algo em troca de toda a manifestação de carinho que demonstrei, isso foi realmente muito decepcionante.

          Chorar em público, ter sensibilidade sensorial com sons, cheiros, gostos e texturas, não saber a hora de falar ou a hora de precisar parar de falar, falta de noção em quem confiar, dificuldade de aprendizado em muitas coisas e excesso de conhecimento em outras, desejo e necessidade de trocar repentinamente de ambiente… São coisas que prejudicam a minha vida, me impedem de trabalhar em uma empresa “comum”, dificultam minha relação com amigos e familiares e me coloca em situação de vexame muitas vezes em minha vida, sintomas do autismo que nunca vão embora, eles podem até diminuir em algumas fases, posso aprender a me proteger, escolher melhor com quem me relacionar, mas não impedem infelizmente de me fazerem sofrer. Porque o autismo é algo complexo, que faz parte do meu funcionamento e que muitas vezes na vida me fez pensar em desistir de viver, mas que com a graça de Deus sempre fui mais forte e sempre tive uma capacidade imensa de acreditar que tudo, um dia, terminaria bem…

          Por vezes me pego pensando em como será minha transição para a terceira idade e aí desisto de pensar nisso porque sei que cada ser humano é único, cada pessoa é uma pessoa antes de ser autista. O traço autista nunca irá embora, cada dia mais eu tenho a expectativa de aprender a me proteger, saber me isolar nos momentos certos e ensinar meu filho a agir da mesma forma. O fato de saber que preciso seguir regras sociais, mas que não preciso me agredir para isso me salva de sofrimentos desnecessários, tipo, não preciso ser grossa com ninguém ao ser sincera e indelicada, mas não preciso me maltratar e ir contra meus princípios somente por “ter que seguir” regras impostas pela sociedade. Ter equilíbrio é fundamental para qualquer pessoa, mas encontrar esse equilíbrio é uma regra de ouro para uma pessoa com autismo.

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Kenya Diehl

Autista, Consultora em Autismo, Escritora

Colunista da revista Ser Autista

Minha vida autista (parte 2) – Os primeiros anos…

Sou a terceira e última filha. Minha mãe engravidou de mim aos trinta e nove anos, com dois filhos pequenos e muita dificuldade financeira, nasci no ano de 1983, naquela época não havia a tecnologia que se tem hoje, era complicado o acesso a tratamentos de saúde física ou psíquica, especialmente se a pessoa fosse de origem humilde.

          Segundo relatos de minha mãe, nasci com as marcas de arranhões no pescoço, havia duas circulares do cordão umbilical e eu estava sentada. Minha mãe, sob efeito de anestesia geral e uma laqueadura feita no momento do meu nascimento. Ela conta que fui um bebê calmo, com olhar parado e ausência quase que total de choro. Para ela, foi fácil cuidar de mim, pois bastava me deitar no balcão da cozinha para que ela pudesse seguir com seus afazeres, eu não me virava, não rolava, não me mexia, não caía. Aceitava o leite materno, mas se não tivesse também não fazia diferença. Pegava objetos pelas mãos, mas se me tirassem não tinha choro, não atirava coisas no chão para as pessoas juntarem, não fazia birras, não exigia atenção. Eu era um bebê que toda mãe queria ter, a famosa bebê que “não dá trabalho”, mas aí já fica o meu primeiro alerta para os pais e mães, bebês calmos demais e indiferentes, sem manifestação de vontade ou descontentamento já são um sinal de alerta e um pedido de encaminhamento para avaliação com pediatra competente que possa seguir o protocolo de avaliação e já se ter uma noção sobre o risco dessa criança desenvolver o autismo.

          Aprendi a andar e a falar cedo, porém, falava apenas o necessário, com a pronúncia perfeita e o português impecável. Andava de um lado para outro e o olhar sempre se voltava para o céu. Minha preferência era brincar com pedras, areia, gravetos e feijões. Tive seletividade alimentar já nos primeiros alimentos experimentados, demonstrava sensibilidade com certas texturas, cheiros e preferia sempre as mesmas coisas. Rejeitei o leite do peito por volta de um ano e meio de idade sob a alegação de que “aquele leite estava velho”.

          Pode-se perceber que pelos relatos de minha mãe, eu era um bebê nitidamente atípico, ela sabia que eu era diferente, mas ela me amava, adorava esse meu jeito estranho de ser, muito embora ela se lembre com certa tristeza de que algumas pessoas me julgavam como chorona, enjoada e egoísta. Na verdade, eu sentia medo, solidão e tinha (tenho até hoje) muita dificuldade em compartilhar objetos. Mas sempre fui silenciosa, educada, recatada, discreta e não incomodava ninguém.

          Minha primeira lembrança enquanto ser humano é a de um homem entrando pela porta da sala, vestido de vermelho, com um grande saco vermelho nas costas e uma máscara de plástico que deveria ser a representação de Papai Noel. Quando vi aquele homem, entrei em pânico, chorei muito, me agarrei à minha mãe, que me pegou no colo e todos tentavam me convencer de que aquele era o Papai Noel e que ele era legal. No auge de meu desespero o homem fez menção de retirar a máscara para me acalmar, mas meus gritos ficavam cada vez mais altos. Eu escutava a voz dele distorcida e, a cada palavra que ele dizia, a máscara se movia de forma trêmula pela face dele. Eu via o buraco dos olhos da máscara e aquilo me dava verdadeiro pânico, eu podia sentir o cheiro do plástico, o vermelho intenso de suas vestes e o susto de ele ter aparecido ali, do nada, sem avisar ninguém. Comecei a me debater, berrar e, por fim, minha última lembrança desse momento foi adormecer nos braços de minha mãe e depois acordar no berço (eu tinha apenas dois anos) com fortes dores pelo corpo.

          Nossa vida não era fácil, minha mãe trabalhava até de madrugada produzindo lanches para venda, meu pai era assalariado e nossa casa era alugada, de madeira, tínhamos naquela época dois pequenos quartos, uma sala e uma cozinha. Conforme nossa situação foi piorando, meus pais precisaram ir vendendo as coisas de dentro de casa para ajudar a comprar alimentos para nós, eram dois adultos, três crianças e uma renda baixíssima que mal dava para pagar o aluguel.

          Assim fui crescendo, com a confiança na minha mãe, eu tinha verdadeira adoração por ela, era minha razão de viver e o resto do mundo não me importava, desde que ela pudesse estar próxima a mim. As poucas tentativas de saídas sem ela sempre terminaram em choro, crises e alguém muito bravo comigo porque eu não havia conseguido cooperar. Mas para minha mãe estava sempre tudo bem, nem passava pela cabeça dela que eu pudesse ter algum tipo de transtorno.

          Nossa situação era bem difícil, nossa primeira grande perda (desde que eu vim ao mundo) foi a casa em que morávamos em Guaíba/RS. Uma enchente veio e levou tudo embora, o que mais me vem em mente quando lembro daquele dia, foi ver minha família junto com demais famílias do bairro serem retiradas de lá na caçamba de um caminhão. Coisas gigantescas sempre me fascinaram e eu me sentia como uma formiguinha navegando em uma folha. Então minha próxima lembrança já é de nós todos instalados na “nova” casa de aluguel que conseguimos com parentes.

          Eu estava crescendo e as despesas da casa estavam cada dia mais difíceis de serem mantidas pelos meus pais. Minha mãe precisou contar com a ajuda de uma moça para cuidar das crianças para que ela pudesse trabalhar, caminhar mais, vender mais, cansar mais, mas ela lutava e não desistia. Certo dia, a moça que me cuidava (só me lembro das pernas dela, o rosto se apagou), me colocou dentro de um tanque que havia embaixo do chuveiro, aqueles tanques antigos de cimento, minha mãe havia colocado ali para facilitar o banho das crianças, tudo era improvisado, até os móveis da casa era ela quem fazia. Eu chorava muito, a água estava fria, gelada, o chuveiro desligado da rede elétrica, aquela água doía na minha pele como se estivesse me queimando e me congelando ao mesmo tempo, meus cabelos finos e embaraçados eram puxados por rústica escova amarela de cerdas de nylon e, conforme eu gritava, ela batia na minha cabeça com a escova. Minha mãe chegou e viu a cena, eu roxa de frio, sem ar de tanto gritar e apanhando na cabeça. Ela botou a moça para fora e eu fiquei me sentindo culpada por ter gritado tanto. Ficava me lembrando de tudo o que a menina tinha feito, como por exemplo, nos dar água com Nescau enquanto ela mesma tomava nosso leite que era tão batalhado por minha mãe. Na minha mente era difícil entender as escolhas das pessoas, não sabia sentir raiva, pena ou medo, precisava escolher os sentimentos, algo que me parecia tão instintivo nas pessoas normais, me era tão complicado e se fazia necessário selecionar em minha mente, complicado demais fazer parte desse mundo, confuso, cansativo e assustador.

          Seguimos nossa sem a ajuda de ninguém, até o dia em que minha mãe cansou, em atitude impulsiva e impensada colocou uma placa na frente de casa vendendo tudo a troco e nos levou embora para São Paulo. Ela acreditava muito que nossa vida seria muito melhor na cidade grande, eu tinha apenas três anos e meu isolamento social nessa época se tornou severo. As coisas não foram como esperávamos, passamos fome, vivemos na miséria, no caos e ali foi o início do fim, seguido pelo começo de uma nova fase ruim que parecia que nunca iria acabar. Minha vida parecia um erro, uma sucessão de falhas, achava que havia sido esquecida por Deus, não entendia como poderia alguém ter uma existência tão inútil como a minha e apenas sobrevivi, adormecida por anos a fio, humilhação sobre humilhação, noites frias após noites frias, fome após fome, medo após medo, sempre com fé em Deus e a certeza de que um anjo iria me salvar da agonia que era a minha vida.

Continua na próxima edição…

Kenya Diehl

Autista, Consultora em Autismo, Escritora

Colunista da revista Ser Autista

Minha vida autista (parte 1) – O início de tudo

Era detarde, uma brisa suave pairava pelo ar, olhei para o céu e vi as folhas doabacateiro se movimentando lentamente com o vai e vem do vento que lhestocavam. Nos fundos da minha humilde casa tinha uma parte composta de terra,mato e… o abacateiro… Nunca me esqueço de como aquilo me fascinava, comopoderia aquela árvore tão linda habitar – e dar frutos – em ambiente tão feio esofrido?

Naqueledia eu estava triste, nada me consolava e a saudade de minha mãe me corroía aalma, ela era a única pessoa no mundo capaz de me entender, mas ela precisavatrabalhar. Com oito anos de idade, pouca habilidade na linguagem verbal e semamigos, parentes ou vizinhos que pudessem me apoiar, eu me sentia sozinha, commedo e, de certa forma, inútil para o mundo.

Observeipor dias a minha mãe acender o bico do fogão com palitos de fósforos, minhahabilidade em aprender era péssima, mas em copiar gestos e ações sempre foiincrível. E então naquela tarde peguei uma garrafa de álcool, uma caixa depalitos de fósforos e fui para perto do abacateiro. Na mureta havia um buraco,ali coloquei um dente de alho, molhei com álcool e acendi um fósforo. Fiqueifascinada com aquela chama subindo e, com uma vontade mais forte do que eu,despejei todo o conteúdo da garrafa de álcool em cima daquele fogo. Boom! A garrafa explodiu em cima de mim,me virei na mesma velocidade da explosão, o fogo atingiu meus longos cabelosnegros e compridos, saí correndo pelo quintal, aos berros e com muita dor.Sentia o fogo subir pelas minhas costas, queimar minhas roupas e quanto mais eucorria, mais o fogo subia.

Umavizinha que havia comprado algumas camisetas, chegou bem no momento em que euincendiava, pulou a grade, jogou as camisetas sobre o fogo e me atirou no chão,fazendo com que eu rolasse de um lado para o outro. O fogo se apagou, elaparecia um anjo me olhando e, dos gritos de pavor, passei a chorar emdesespero. Meus cabelos já não estavam mais ali, foram consumidos pelas chamas,mas com sorte não chegou a atingir a cabeça. Meus cílios e sobrancelhassumiram, minha testa ficou como se tivesse cola, uma bolha nas costas e uma dorna alma. Deus me deu mais uma chance e a lição de que, acabar com a própriavida, não resolve o problema de ninguém…

Esse foi um dos momentos de dificuldade que minha mente autista teve que enfrentar, sem entender o porquê de eu ser tão diferente das pessoas, sem entender a razão de todos me ignorarem e onde estava Deus que parecia ter esquecido de mim em uma existência conturbada e tão cheia de dor. O autismo me isolou, complicou o que já era difícil, dificultou ainda mais a pobreza em que eu vivia, mas o autismo me proporcionou “anestesiar” tudo isso na maior parte do tempo, minha literalidade ajudou a manter a frieza necessária para superar as dores e a doçura indispensável para conquistar as melhores pessoas ao longo de minha jornada…

Continua na próxima edição…

Kenya Diehl

Autista, Escritora, Colunista da Revista Ser Autista

Consultora em Autismo, Palestrante e Empresária

As coisas são como tem que ser

Às vezes desejamos algo com tanta intensidade que acabamos não enxergando que talvez não seja o melhor momento para nossos pedidos serem atendidos.

Não existe essa de que Deus não atende a uns para atender a outros. O que existe é hora, lugar e pessoas certas. Precisamos exercitar a paciência e compreender que um sonho não realizado em determinada situação provavelmente se trata de uma bênção e não de um castigo. Mas pode ser que através da insistência e do pedido desesperado acabamos conseguindo o que queremos e na hora em que queremos, aí então vem a frustração, o choro e o arrependimento. Porque quando as coisas não seguem o fluxo natural de merecimento e adequação tudo sai de forma destorcida e o resultado acaba sendo totalmente diferente daquilo que esperávamos.

Tem uma frase famosa que diz: “cuidado com o que você deseja, pois você pode acabar sendo atendido”. Isso quer dizer que precisamos arcar com as consequências de nossas escolhas, sejam elas boas ou ruins.

Não deixe de querer as coisas do seu jeito, pois isso certamente é melhor do que não saber o que se quer. Porém tenha paciência para entender que o seu esforço será recompensado no momento do seu merecimento. E certamente não é você quem decide que momento será esse.

Mantenha o entusiasmo e a fé!

Coragem!

KenyaDiehl®️

A sua existência é única – valorize-a!

Tudo aquilo que nos resume ao que somos hoje é o resultado da soma das nossas experiências anteriores e não somente elas, mas sim a forma como lidamos e o direcionamento que damos aos acontecimentos mais impactantes de nossas vidas.

Podemos associar nossos fracassos e vitórias ao tipo de educação, oportunidades e experiências às quais fomos expostos, assim como podemos atribuir nossa coragem ou fraqueza aos modelos de liderança com os quais convivemos, como pais, professores ou chefes.

Até certo ponto, a influência exterior que sofremos pode sim ajudar a moldar nossas preferências de forma positiva ou negativa, porém, devemos sempre ter a consciência de que cada um de nós tem uma índole e uma essência únicas, às quais ninguém, jamais, poderá tocar, modificar ou destruir. Se não fosse assim, não existiriam tantas diferenças de atitudes e escolhas entre irmãos que foram criados no mesmo ambiente e pelos mesmos pais.

Valorize a beleza que há em você. Podem existir pessoas parecidas com o que você se tornou ao longo da vida, mas a sua existência é única e jamais haverá alguém realmente igual a você. Junte suas dores, acrescente suas virtudes e veja o tamanho da sua força. Ela é enorme, forte e importante para o mundo.

KenyaDiehl®️

Autismo é vida – me ame como sou

O poder da gratidão em sua vida

Gratidão é um sentimento nobre, que prioriza a humildade frente ao orgulho, que é onipresente, independentemente se as coisas vão bem ou mal na vida da gente…

Todos temos sofrimentos a superar, uns mais e outros menos, alguns têm deficiências, desemprego, escassez financeira, relacionamentos arruinados, enquanto outros experimentam o fracasso nos projetos, a dor da perda de um ente querido ou a dor de ser agredido…

Sofrimento é sofrimento em qualquer circunstância.

E o que podemos fazer quando não nos resta mais nada além da dignidade? Nos resta agradecer a dignidade que temos! Porque para quem tem gratidão de verdade, sempre há um bom motivo para agradecer mais e mais.

Deixe de ser seu maior refém, liberte-se, não aceite ser vítima de seus próprios embaraços. Você tem a opção de reagir e tentar. Ou pode ficar inerte e não ter nada a experimentar…

Mas preste atenção! Não julgue quem não tem essa força dentro de si.

Respeitar o limiar de dor de cada ser é agir conforme nos manda as leis universais. É seguir com humildade, entendendo que todos nós, sem exceção, temos dias de alegria e também dias de tristeza.

A vida gira sem parar, numa dança linda em que não existem melhores e nem piores, mas sim existem momentos que se transformam o tempo todo e, se estivermos atentos, iremos conquistar nosso lugar fixo na felicidade plena.

Portanto, não almeje “ter” gratidão, mas sonhe em “ser” grato pela vida que em você habita e que é perfeita aos olhos do Pai.

KenyaDiehl®️

Cartinha de aluno autista comove a quem lê

Guilherme Diehl

“Querida professora,Como sabe, sou autista.

Já fui autista moderado e não verbal. Mas hoje, aos nove anos, sou autista asperger e falo de tudo.Sou inteligente, feliz e carinhoso. Adoro brincar, amo conversar sobre meus assuntos favoritos e isso às vezes pode ser um problema quando estou sozinho com as crianças porque elas me acham esquisito.Tenho muita sensibilidade aos barulhos, não gosto de brigas, se as presencio eu choro e posso me desorganizar.

Eu sei usar o banheiro, lavar as mãos e vestir minhas roupas, mas eu não tenho o hábito de fazer minhas necessidades fora de casa. Gostaria muito que ninguém insistisse com isso. Eu fico bem assim e vou ao banheiro logo que chego em casa. Apesar de eu ser independente, na hora do lanche ainda preciso de orientações mais diretas, principalmente ao abrir embalagens e guardar tudo bem fechadinho no final. Eu sou esperto, galanteador e tentarei te distrair muitas vezes, não é que eu não queira aprender, é que tenho dificuldade em me concentrar e sofro de ansiedade. Preciso de paciência e de muito carinho.

Não sou agressivo, nunca precisa ter medo de mim, o meu maior problema é ser insistente quando quero algo. Por favor professora, seja firme em me manter atento à aula, eu preciso disso para me desenvolver.

Minha mãe está sempre pertinho e qualquer coisa você pode ligar para ela. E falando nela, mamãe também é autista asperger como eu e foi ela que me ensinou a conviver melhor com as pessoas.

Não gosto de me apresentar em datas festivas. Você vai ver eu ensaiar e me motivar. Eu amo música, dança e fantasias, mas sabe professora, eu não gosto da escola cheia de familiares e turmas juntas. Na hora certa eu vou conseguir, mas ainda preciso aprender a diferenciar dias de aula dos dias de festa. Eu enxergo tudo por partes e me esforço muito para conviver bem com todos, mas isso me deixa confuso e com dificuldade de entender quando tudo muda.

Ah! Antes que eu me esqueça, eu preciso te dizer que demoro mais para aprender, mas nunca mais me esqueço daquilo um dia aprendi a fazer. Não entendo piadas e nem indiretas. Ironias e falas invertidas me incomodam porque nunca sei o que estão querendo dizer. E fico muito triste quando riem de mim. Adoro falar frases de filmes e desenhos e isso pode ser complicado com outras crianças se não tiver um adulto me ajudando a interagir. Mas se vejo alguém triste eu sou o primeiro a proteger e tentar curar o que lhe incomoda. Porque eu sou um amor e eu amo amar as pessoas.

Ano passado eu aprendi e a ler e a escrever. Espero que a gente tenha um lindo ano e que no final eu possa saber mais um pouco sobre tudo o que a escola tem a me ensinar. Quero aprender a brincar melhor com eles e continuar na constante evolução que venho tendo desde que cheguei neste mundo.Estou ansioso pelos passeios, esses que um dia achei que nunca iria conseguir, mas com a ajuda da mamãe e do papai e também das profes eu aprendi a amar esses passeios e aproveito muito bem. Ano passado tive uma convulsão depois da festa do dia das crianças, então esse ano teremos mais cuidado com isso.

Eu faço reforço com psicopedagoga todos os sábados e lá ela me ensina a brincar, a escrever as letras e contar os números. Ela me ensina também a saber esperar e a fazer trocas, sou muito bom nisso!Conheço todos os números, as letras, cores, formas e alguns planetas. Amo o hino brasileiro e as visitas à igreja da escola. Sei brincar de imaginar, mas não sou capaz de mentir. Não fique brava se eu inventar uma história meio maluca, mamãe está me ensinando que isso pode confundir as pessoas e estou aprendendo a contar tudo como realmente aconteceu. É que para falar eu uso ecolalias e nem sempre consigo encaixar as frases aos acontecimentos.

Você vai me ensinar muitas coisas querida profe, mas eu também vou te apresentar grandes lições.

Um beijo na profe, do seu novo aluno. Gui”KenyaDiehl Diehl e GuiDiehl18/02/2019

Uma nova chance

Todos nascemos e morremos. E entre esses dois determinantes episódios todos envelhecemos. É natural, faz parte da existência. Só não envelhece quem não fica vivo, quem se despede deste mundo antes que a juventude acabe.

Se hoje fosse o meu último dia de vida, eu queria que todas pessoas entendessem que o sofrimento é algo que pode sim ser evitado se conseguirmos compreender os desígnios de nossa trajetória.

Queria ver os jovens respeitando os mais velhos e que eles tivessem a consciência de que um dia irão chegar lá, terão mais responsabilidades, terão filhos – ou não – também terão rugas, quilinhos a mais, nada de mais, apenas o esperado para cada etapa. Queria que os mais velhos compreendessem os mais jovens e se lembrassem de que na sua juventude igualmente tinham a certeza de nunca iriam envelhecer.

Tenham paciência uns com os outros. Não somos obrigados a acertar sempre. O erro faz parte do acerto, muitas vezes ele precede a escolha decisiva que fará tudo finalmente dar certo.

Não questione as leis da vida, apenas aceite-as como necessárias para o bom andamento da história da humanidade.

Cuide de sua saúde mental, seja seu maior aliado para uma vida mais tranquila.

Não evite o inevitável, não postergue o intransferível, não troque seus sonhos por prazeres imediatos.

Mantenha suas raízes na profundeza do seu ser, de modo que ninguém as arranque com uma pancada em seu coração. Ah! E falando em coração, ele é mais forte do que você pensa.

Então, enxugue as lágrimas, sorria para você diante do espelho, não exija tanto de você, seja justo o suficiente para corrigir os seus erros, mas não seja exagerado em se punir tentando se consertar.

Todos os dias temos uma nova chance, mas tudo continuará igual se você nada fizer para mudar. Mas será incrível se em si mesmo você acreditar.

Fé, acima de tudo, sempre.

Que seja lindo, cheio de luz, de paz, compreensão e amor.

KenyaDiehl®️

Autismo é vida – me ame como sou

Não seja refém de sua própria história

Todos nós queremos viver uma vida em que não existam sentimentos ruins. Os sentimentos bons curam, os ruins destroem…

Mas existem momentos em que é preciso sentir raiva, reagir, crescer, sair do ninho para construir novos caminhos, mudar crenças antigas e então se livrar de culpas que não são suas.

Enquanto escondemos de nós mesmos aquilo que está guardado nos cantinhos mais profundos de nossa alma só o que fazemos é nos enganar acreditando que um dia tudo irá mudar. Mas não muda. Quem muda somos nós, nossa visão de ver a vida e nossas atitudes perante as coisas. Se durante muito tempo fizemos algo e o resultado foi sempre o mesmo, então é hora de fazer diferente.

E para tudo isso, se for preciso se revoltar, sentir raiva, cair fora, então que assim seja.

Deus te deu uma vida para que você respeite. Você é obra de Deus, não se menospreze acreditando ser merecedor de sofrimentos que não são seus. Valorize cada sopro de ar que entra em seus pulmões e deixe de sentir e ser responsável pelo sofrimento alheio.

Acorde, viva, dê um basta! Não deixe que histórias do passado te engulam e te derrubem em depressão. O que passou só serve de lição para que os sofrimentos não se repitam. Nunca se permita ser refém de sua própria história.

KenyaDiehl®️

Autismo é vida – me ame como sou

Seja forte, seja doce, seja justo

Desculpa – algo que se pede quando há o profundo sentimento de que se errou. Nem sempre o pedido de desculpas é suficiente, especialmente quando este se dá apenas da boca para fora.

O arrependimento verdadeiro vai além do simples se desculpar, ele envolve a entrega em se corrigir. Em ser humilde o suficiente para deixar o orgulho de lado e ter a coragem de fazer o que a consciência manda.

Mas como saber quando alguém está sendo sincero em se desculpar? Não saberemos! Não nos cabe identificar o que se passa dentro da cabeça das pessoas, o que podemos fazer é sermos justos, corretos e confiantes na justiça divina.

Se valer da idéia de que, já que nos fizeram mal, nos traíram ou nos humilharam, nos daria o direito de agir da mesma forma é um grande erro. Pois isso só nos coloca no mesmo nível ou até pior do que aquele que errou, uma vez que o erro cometido de forma consciente tem um peso muito maior do que aquele que erra na ignorância.

Acredite, todo acontecimento tem uma boa razão, se soubermos utilizar a dor como lição então teremos acesso às novas oportunidades que virão!

Seja forte, seja doce, seja justo. Esteja atento para que as pessoas não consigam te machucar, mas se acontecer sem que você possa evitar, então seja nobre o suficiente para perdoar.

KenyaDiehl®️